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Megafone

“La vida es buena”

O resultado que os dois dedos de conversa com a Sofie tiveram em mim foi um tremendo sentimento de gratidão: pela minha família, pelos meus amigos, pelos que me fazem feliz e por a ter conhecido

Foi em trabalho que tive a oportunidade de conhecer Sofie, uma francesa muito bonita que há mais de 10 anos teve um acidente que lhe roubou física e mentalmente muitas das coisas que todos nós consideramos essenciais para uma vida “normal”. Mais tarde viria a descobrir que ela é muito mais do que as pessoas “normais”.

Sofie abordou-me depois de um mini-torneio de zarabatana adaptada a pessoas com mobilidade física reduzida, perguntando-me de onde era. Disse-lhe que era portuguesa e perguntou-me se podíamos falar um pouco para ela relembrar o seu espanhol aprendido antes do acidente e já meio esquecido. Assenti, com a condição de poder responder num francês enferrujado. Em suma, conversámos em Esperanto. A conversa fluiu como se nos conhecêssemos há anos, com Sofie a contar-me um pouco da sua história, que tinha sido uma atleta e que estar parada nunca foi com ela. Contou-me que com o acidente perdeu a quase totalidade da mobilidade e que a memória ainda lhe prega muitas partidas. Contou-me que a vida nos arruma quando achamos que ela trabalha a nosso favor e que quando são as máquinas que trabalham por nós, a nossa perspectiva muda e aprendamos a deixar-nos de mesquinhices. Contou-me também que foi a hipoterapia que a pôs a mexer e que é o desporto que a faz sentir-se de novo um pouco mais a Sofie de antigamente. No fim, despede-se de mim dizendo que a vida lhe tirou na mesma medida em que deu de novo e se não fosse o seu acidente nunca me teria podido conhecer e falar comigo, terminando com a frase “la vida es buena”.

Apesar das suas belas palavras e do momento fantástico que partilhámos, não pude deixar de sentir que aquela última frase me acertou em cheio como uma grande murraça, estando “dorida” até hoje. É certo que não temos a obrigação de lidar todos de forma igual com o que nos acontece e que cada um tem a sua escala de dor pessoal num mundo onde as circunstâncias parecem contradizer o “se te portares bem só te acontecem coisas boas”, mas caramba, valorizamos tanto o que não nos dá qualquer valor e esquecemos ou ignoramos o simples facto de estarmos inteiros, de termos um corpo que trabalha connosco e não contra nós.

Perante as palavras dela senti-me uma parva: parva pelo que me queixei das três semanas de canadianas por um pé torcido, parva por me queixar que me doem as costas quando carrego o mundo dentro da mala, parva por ter um corpo que trabalha para mim e onde ainda assim eu encontro defeitos. Acima de tudo, o resultado que os dois dedos de conversa com a Sofie tiveram em mim foi um tremendo sentimento de gratidão: pela minha família, pelos meus amigos, pelos que me fazem feliz e por a ter conhecido e nunca, em momento algum, me permiti sentir pena ou “mal” pela Sofie pois quando a vida nos acerta nos queixos e ainda lhe damos a outra face, merecemos entrar no “hall of fame” das pessoas que vale a pena conhecer. Deleuze disse que a “ética é estar à altura do que nos acontece”. Sofie está portanto uma boa meia dúzia de metros acima de mim.