Obras do Teatro Capitólio estão paradas há três meses

Em 2007, Manuel Salgado disse que gostaria de ter o teatro pronto no final de 2009. Empresa que estava a executar a segunda fase dos trabalhos está à beira da falência.

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Sandra Ribeiro

É mais uma obra enguiçada em Lisboa. Depois de ter estado parada durante quase dois anos, entre 2010 e 2012, a reconstrução do Teatro Capitólio, no Parque Mayer, voltou a ser interrompida há cerca de três meses. O empreiteiro está à beira da falência e a Câmara de Lisboa, dona da obra, nada diz sobre a forma como vai resolver o problema.

No velho, polémico e abandonado recinto de espectáculos contíguo à Avenida da Liberdade deixaram de se ver os poucos sinais de vida que ali restavam no princípio do ano. Os trabalhos de reconstrução do agora chamado Teatro Raul Solnado foram suspensos, com a obra exteriormente quase concluída, mas com os interiores ainda muito atrasados. Só muito raramente é que agora lá se vê alguém.

“Eles levaram o pessoal e as ferramentas há uns três meses e pararam tudo”, conta um empregado do Restaurante A Gina, o único que mantém as portas no parque, agora entregue aos gatos e aos automóveis que estacionam no seu interior, contra o preço cobrado pela EMEL.

Vasco Morgado, presidente da Junta de Freguesia de Santo António e neto de um dos grandes empresários teatrais da Lisboa do século passado, já no início deste mês questionou o vereador responsável pelo pelouro das Obras Municipais, Jorge Máximo, sobre a paragem das obras. “O que ele me disse foi que o empreiteiro estava em situação de falência e que ia tentar resolver o problema numa reunião com os subempreiteiros”, relata Vasco Morgado, também ele produtor de espectáculos.

A diligência anunciada pelo vereador, porém, não deu quaisquer resultados. “O vereador informou-me entretanto que não conseguiu negociar com os subempreiteiros, mas que continua a tentar resolver o problema, que não é fácil, e que me manterá ao corrente de qualquer evolução”, acrescentou o autarca do PSD em cuja freguesia está inserido o Parque Mayer.

A empresa a quem o município adjudicou a segunda fase da reconstrução, em 2012, após uma primeira paragem de 21 meses, é a Habitâmega, uma sociedade que está em grandes dificuldades financeiras e entrou recentemente, sob administração judicial, num processo especial de revitalização. Com mais de 20 milhões de euros de dívidas, a Habitâmega interrompeu também, no mês passado, as obras do empreendimento da EPUL que há 13 anos se arrastam no Martim Moniz.

A reconstrução do Teatro Capitólio foi decidida pela câmara em 2007 e a primeira fase das obras arrancou em 2009, com um projecto do arquitecto Alberto de Souza Oliveira, que devolve ao edifício a traça original que lhe foi dada em 1925 por Cristino da Silva. Demolidas foram todas as obras de alteração que o próprio Cristino da Silva projectou mais tarde, por forma a aumentar a capacidade da sala em termos de espectadores.

“Sou completamente contra essa opção e já o disse muita vez”, afirma Vasco Morgado. “Em 1929, o arquitecto Cristino da Silva verificou que aquilo não era viável como estava no projecto inicial e meteu lá um balcão, criando assim uma sala com perto de 1100 lugares. Agora deitaram abaixo o balcão para ficar igual ao original e o teatro fica inviável economicamente, com menos 600 lugares”, garante o autarca. Se um produtor quiser trazer para ali um grande espectáculo internacional, acrescenta, “só consegue fazê-lo com bilhetes a 100 ou 150 euros”.

A obra que a Habitâmega estava a executar foi adjudicada em Abril de 2012 por 5,5 milhões de euros, após a realização de um concurso público internacional, e tinha um prazo de execução de oito meses, para ficar pronta no princípio do ano passado. Os atrasos, todavia, são ainda anteriores à conclusão da primeira parte dos trabalhos, em 2010. Em Dezembro de 2007, na altura do lançamento do concurso da primeira fase, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, declarou publicamente que gostaria de ter o teatro pronto no final de 2009.

O PÚBLICO dirigiu há semanas várias perguntas à Câmara de Lisboa sobre a situação do Capitólio, mas não obteve resposta.

Acordo com a Bragaparques já foi assinado

A Câmara de Lisboa assinou com a Bragaparques, no dia 15 de Abril, o acordo extrajudicial que, se for homologado pelo juiz, poderá pôr fim a vários litígios judiciais que opõem as duas partes e obrigará a câmara a desembolsar 101 milhões de euros até 2023. Um das consequências da homologação desse acordo – e da resolução definitiva do diferendo entre o município e a empresa através do tribunal arbitral que se pronunciará sobre as matérias em que se mantêm divergências – será a passagem da propriedade do Parque Mayer para o município. À data da assinatura do acordo, estava em vigor uma decisão judicial de há dois anos que anulara a permuta através da qual o município ficara com o Parque Mayer e a Bragaparques ficara com parte do terreno da antiga Feira Popular.