Casal escravizado na agricultura e em cativeiro durante dois anos foi libertado pela PJ

Agricultor mantinha sob coacção três homens e uma mulher. Aliciou-os para trabalho com quantias que nunca pagou. Terá agredido várias vezes as vítimas e violado a mulher na presença do companheiro.

Homens trabalhavam nas vinhas
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Trabalhador sentiu-se mal após ter estado mais de seis horas a limpar ervas à volta de umas vides. Foto: Paulo Ricca

Durante dois anos um casal foi escravizado e viveu em cativeiro, numa casa em Alfândega da Fé, Bragança. Homem e mulher eram obrigados a trabalhar na agricultura, juntamente com outros dois homens, também coagidos. Esta quinta-feira, investigadores da PJ do Porto libertaram-nos, ao final do dia, ao mesmo tempo que detiveram o homem que os explorava.

O suspeito, de 43 anos, angariava trabalhadores nas ruas para os colocar a trabalhar na lavoura. O agricultor, que era contratado por grandes proprietários rurais, começava por aliciar os trabalhadores prometendo-lhes inicialmente 20 euros por dia, alojamento e alimentação. Depois, porém, nada pagava. Retinha os documentos dos trabalhadores, que agredia – nomeadamente com um cinto – e obrigava a viver numa casa arrendada num ermo de Alfândega da Fé, adiantou fonte da PJ ao PÚBLICO.  

A única mulher incluída neste grupo de vítimas terá sido reiteradamente violada pelo suspeito na presença do companheiro. O detido obrigaria também ainda outro grupo de trabalhadores, a quem pagava pelos serviços, a violar a mulher.

A detenção do suspeito surgiu após uma denúncia. A polícia suspeita que o detido terá mantido outras pessoas nas mesmas circunstâncias, porém, essas vítimas não foram até agora identificadas, tendo aparentemente escapado ao controlo do sequestrador. Com a detenção do responsável, a PJ acredita que surjam mais denúncias.

Até agora, as vítimas libertadas quinta-feira, e que tinham entre os 40 e os 50 anos, trabalharam, em servidão, em vários terrenos e quintas, amiúde, em Vila Flor e Mirandela. Realizavam trabalhos de poda, limpeza florestal e vindima. Viviam entre a casa que servia de cativeiro e o veículo em que eram transportados.

Na habitação, a PJ apreendeu uma catana, um punhal e um aerossol semelhante ao gás pimenta usado pela polícia. As vítimas “viram-se forçadas a trabalhar de forma não remunerada, sujeitas a condições indignas e condicionadas na sua liberdade perante trato de intimidação, ameaças e agressões físicas”, refere a PJ.

O suspeito, sem cadastro anterior, vai aguardar julgamento em prisão preventiva depois de ter sido presente a um juiz esta sexta-feira. Está "fortemente indiciado" por crimes de escravidão, tráfico de pessoas para fins de exploração laboral, ofensa à integridade física qualificada e violação.

As vítimas têm baixa condição económica, social e escolar, aponta a Judiciária. Aliás, são comuns os casos de suspeitos, detidos em situações verificadas em anos anteriores na mesma região, que escolhiam vítimas com iguais critérios. Em 2012, a PJ libertara já outro casal que esteve em cativeiro e fora escravizado durante 20 anos, também numa quinta em Alfândega da Fé. O caso, realçou fonte da PJ, não terá qualquer relação com este.