Crítica Música

Um apelo de sangue

Juntando as várias tradições musicais da Península Ibérica, com especial enfoque no cancioneiro sefardita, Janita Salomé convoca mil cantos para a sua voz no novo "Em Nome da Rosa"

António Laureano
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António Laureano

Janita Salomé tem um olho na nuca e outro na testa. Não literalmente, como é evidente. Não vale a pena destapar-lhe a cabeça dos chapéus ou dos lenços com que tantas vezes se apresenta à procura de um olho clandestino. “Ai de nós se não tivermos um olho na nuca e outro na testa, procurando sempre não perder de vista o passado, transportá-lo para o presente e projectá-lo para o futuro”, afirma, os dois olhos bem virados para a frente. Há que cuidar das raízes, não pressupor a sua existência eterna e imaculada só porque já estavam lá antes. O músico chama-lhe “aprendizagem da existência, do indivíduo”, e a isso se tem dedicado desde que começou a cantar na vila do Redondo, ainda criança, prolongando essa postura no encontro fundamental com José Afonso, nas partilhas musicais com o irmão Vitorino ou nos seus próprios atrevimentos a solo.

Desta vez, ao lançar Em Nome da Rosa, o olho da nuca está claramente focado nas suas raízes sefarditas. “Sou Salomé, oriundo de Belmonte [a vila da Beira Baixa que se tornou destino de fuga para os judeus perseguidos por D. Manuel I] — o meu trisavô foi de Belmonte viver para o Alentejo — e assim me surgiu a ideia de fazer esta abordagem a temas sefarditas”, conta. Na verdade, olhando para a discografia do cantor alentejano, trata-se de mais uma investigação pessoal, paralela àquela desenvolvida em torno da presença árabe na Península Ibérica que marcava já, nos anos 80, discos como A Cantar ao Sol ou Lavrar em Teu Peito. O facto de um amigo alemão lhe ter passado “uma colectânea de recolhas de temas sefarditas feita nos Balcãs e na Turquia, para onde os judeus fugiram aquando da Inquisição” pode soar a rastilho para parte de Em Nome da Rosa. Mas é Janita Salomé quem provoca e procura estes acidentes de percurso, como se esgravatasse a terra sempre à espera de encontrar pistas que lhe sugiram ligações, caminhos, estímulos para voltar a olhar para a sua música e dela extrair algo novo.

Lembremo-nos de que a estreia de Janita Salomé a solo, Melro, em 1980, é desde logo um disco dividido entre os cantares alentejanos e o fado de Coimbra, numa altura em que acabava de se profissionalizar assumindo o posto de músico de palco de José Afonso. É com Zeca, aliás, mas já no ano seguinte e em Paris, que Janita estremece acometido por uma pequena epifania ao ver actuar na rua um grupo de imigrantes marroquinos. “Foi um apelo ancestral de sangue que me tocou e me disse que havia qualquer coisa para aprofundar”, recorda. Essa musicalidade implicada no cante alentejano, mescla de cantos eclesiásticos e desvios árabes, já a intuía mesmo antes de racionalmente procurar justificação para tal familiaridade. Em miúdo, no Redondo, ouvia com frequência a Rádio Rabat — “Apanhava-se bem em ondas curtas”, diz — e a Rádio Nacional de Espanha no pequeno aparelho instalado na loja de relógios do pai. A música árabe e a sua extensão às tradições andaluzas rapidamente passaram a ser tão naturais quanto António Calvário.

Essa amplitude de referências faz com que ao cantar Oh Bento Airoso (um tema tradicional transmontano recolhido por Michel Giacometti), de uma forma que Zeca também não desdenharia, reconheça não apenas “uma melodia lindíssima que deixa a sensação de cruzar influências da música sefardita”, mas também descubra uma quadra comum ao cante de Natal do Redondo. E que compreenda o porquê de os franceses insistirem em chamar a Amália Rodrigues a Oum Kalthoum [cantora egípcia] portuguesa. “Trata-se de música mediterrânica, de encontros com uma matriz comum”, justifica, ciente das características migratórias de músicas que se influenciam mutuamente há vários séculos e de que é também essa a família em que se inscreve o fado. O mesmo lastro está presente quando Janita e o director musical Filipe Raposo juntam jazz, tango e música sefardita no belíssimo Bre Sarika Bre — evocador das fusões dos franceses L’Attirail —, aproveitando as deixas que a investigação e a História vão oferecendo, ou quando traçam um ponto de tangência entre a africanidade de Zeca e a teatralidade de Ney Matogrosso em Sofia Rosa.

O nome da rosa

Tal permeabilidade, assim como a escolha de músicos e letristas, transforma este reportório e garante uma extensão ambiciosa das criações de Janita. É para aí que aponta o olho na testa. Nessa projecção dos sons que Janita Salomé traz consigo, o cantor faz-se acompanhar por uma pequena trupe de músicos vindos do jazz (Mário Delgado ou António Quintino), um Pedro Jóia excelente na introdução de motivos arábicos e um Filipe Raposo estratégico no seu lugar equidistante entre o jazz e as músicas tradicionais. Músicos e poetas (António Lobo Antunes, Hélia Correia ou José Jorge Letria) dispõem-se então em torno da imagem da rosa. A rosa que Janita cultiva e que decora a frontaria da sua casa de aldeia, mas também uma rosa que simboliza amizade e fraternidade, que alude à “alquimia da regeneração e da transformação homem”, uma rosa que sabe não viver num mundo de rosas. “Através das suas características simbólicas acaba por ser uma metáfora dos tempos em que vivemos — incertos e angustiantes”, acredita Janita.

Daí que a música de Janita, funcionando como confluência de culturas distintas, sirva também para o cantor expressar o seu posicionamento ao lado do “direito dos palestinianos à sua terra e à sua pátria”, condenando “o muro cego que divide povoações, terras e culturas ao meio” ao longo da Cisjordânia, ao mesmo tempo que lamenta a expulsão dos judeus do território português e enaltece D. João II e Padre António Vieira como seus defensores. Tudo isto corre pelo canto encantatório de Janita em Reino de Verão, decorado com melismas arábicos, ou pela incrível fantasia do crooner ibérico de Em nome da rosa, cruzando de forma insistente e soberba mundos dessintonizados. “Tudo o que existe no seu estado puro”, garante, “está condenado a estiolar e morrer. Até entre os animais os híbridos são os mais resistentes”. E é isso que Janita continua a fazer — a resistir, sem deixar que raízes signifiquem imobilidade.

 

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Janita Salomé

Em Nome da Rosa
Ponto Zurca