Crítica

O nosso desgraçado favorito

Gravou um disco imaculado, gerou culto, perdeu a cabeça e acabou por morrer quando finalmente arranjou um contrato. Quase 50 anos depois, o único álbum de Jackson C. Frank tem uma segunda vida. E ainda dizem que não há milagres

GAB Archive/Redferns
Foto
GAB Archive/Redferns

Se por alguma razão alguém decidisse, com requintes de crueldade, fazer um concurso para eleger o mais desgraçado cantautor da história da humanidade, candidatos não faltariam, mas o vencedor era certo. Jackson C. Frank não comeu o pão que o diabo amassou; foi triturado pelo diabo até ser reduzido a migalhas, o seu talento esquecido de todos, a mão na penúria estendida à sorte e ao azar.

Tim Buckley, atormentado até ao osso e incapaz de viver sem muletas tóxicas, morreu com uma sobredose de heroína; Tim Hardin também cedeu às drogas; Karen Dalton nunca as largou, e Judee Sill prostituiu-se para alimentar o vício que a matou. Destes, só Buckley conheceu algum sucesso, antes de a sua vertigem musical o afastar das tabelas de vendas. Frank, por sua vez, quase teve sucesso: o seu primeiro e único disco, homónimo, de 1965, foi produzido por Paul Simon, que já era conhecido, mercê da sua dupla com Garfunkel que, no ano seguinte, explodiria a nível mundial com Sounds of Silence. Simon & Garfunkel passavam muito tempo em Inglaterra, onde eram idolatrados pela cena folk local — Frank, que nas gravações exigia estar no escuro, sem ser visto, caso contrário não conseguia cantar, “emigrou” com eles para este lado do Atlântico e rapidamente ganhou um pequeno culto.

O segredo do seu único álbum, uma jóia que permaneceu esgotada até ao início deste ano, alimentando culto e mitos vários, residia na simplicidade dos dedilhados de Jackson e na sua voz de barítono colocadíssima. Nisso e numa rara qualidade para criar melodias. Sandy Denny, a musa da folk britânica, foi sua namorada. Jackson convenceu-a a deixar a enfermagem para se dedicar à música: até isso lhe devemos. 

Um incêndio e um trauma

O que conhecemos da infância de Frank sabemo-lo através dos amigos que fez em Inglaterra: John Renbourn, que viria a ser o (extraordinário) guitarrista dos magníficos Pentangle, conta que quando Frank era miúdo houve uma explosão na escola onde andava. O acidente matou todos os seus colegas (primeira namorada incluída) e deixou-o severamente queimado. Durante a convalescença, um professor sobrevivente ofereceu-lhe uma guitarra, pois Frank era fã de Elvis — que aliás conheceu, levado pela mãe.

Aos 21 anos, Frank passou a viver do seguro desse incêndio, que gastou em carros, hotéis e (possivelmente) algum hedonismo. Mal o dinheiro acabou, a tendência depressiva do músico, que surgira após o incêndio, começou a ser mais e mais notória. Quando era visto a tocar, não cantava: fazia um barulho ensurdecedor com a guitarra. O homem outrora calmo dera lugar a um ser possuído pela raiva. 

Katherine Wright, a namorada de Frank à época do primeiro disco, diz ser falsa a ideia de que o dinheiro foi dissipado em práticas hedonistas: Frank, relata, foi para Inglaterra quando a relação que tinham terminou, ao fim de dois anos de dificuldades extremas. Desde que recebera o dinheiro, Frank entrara num processo paranóico, achando que todos à sua volta estavam a aproveitar-se dele. Isto faz sentido ouvindo Fixin’ To Die, uma colecção de canções que compôs antes do disco de estreia: nele ouve-se um homem ainda mais esgaçado do que Jackson C. Frank dá a entender.

De volta aos EUA, Frank casou, mas o azar não o largou: o seu filho morreu cedo de fibrose quística, lançando-o definitivamente numa depressão sem fim. Diagnosticaram-lhe esquizofrenia, internaram-no, deram-lhe choques eléctricos durante anos, até que um belo dia notaram que afinal não era esquizofrénico, só tendencialmente deprimido devido ao trauma de infância. 

Descer à dor

Ao longo dos anos, Frank foi mandando cartas ocasionais aos seus antigos amigos músicos, invariavelmente dizendo que estava a compor o segundo álbum mas encontrara dificuldades. Também costumava agradecer quando acontecia saber que os amigos não haviam deixado de tocar as suas canções. Foi através de uma dessas cartas que John Renbourn soube que fora internado. 

O Simmonds Court, a instituição que tão bem tratou de Frank durante anos, finalmente decidiu soltá-lo; Frank, cujo casamento ruíra, decidiu ir para Nova Iorque à procura de Paul Simon, pois julgava que este detinha os direitos da sua música — sendo que Frank nunca viu um tostão de direitos de autor. Na sua mente pairava o tal segundo disco. 

Sempre perseguido pela sorte, Frank acabou nas ruas, mas isso não foi tudo. Certo dia, estando a vagabundar à procura de comida, levou um tiro. Não fizera mal a ninguém, não tinha inimigos, era um simples tonto que passava os dias a olhar fixamente para semáforos; mas uns miúdos andavam por ali com uma espingarda na mão e, consta, fizeram mira à vista de Frank. Infelizmente, tinham pontaria. Frank sobreviveu, mas cego de um olho. 

Um fã, Jim Abbott, encontrou-o anos depois, após basto tempo perdido à procura dele. Levou-o de volta para Woodstock, onde Frank vivera com a sua esposa, e incitou-o a voltar a compor, procurando um contrato de edição para o que supostamente viria a ser o tal segundo álbum do bardo. 

Quando o acordo estava feito, Frank, sempre cheio de sorte, morreu, deixando para trás, como únicas posses, um disco gravado em 1975 que nunca chegou a ser editado, uma cassete com canções inéditas que dizia apenas Jackson C. Frank e um livro de 200 páginas com os seus escritos. Não tinha mais nada. 

O livro, assim como todas as canções que, fosse em que condições fosse, Frank conseguiu chegar a gravar serão editados no próximo Outono — ironicamente, numa caixa de luxo. Entretanto, o disco de estreia foi reeditado no início do ano: um exemplo de folk clássica absolutamente imaculado. 

Entretanto, saiu também Fixin’ To Die, uma colecção de canções gravadas antes do primeiro disco que Frank deixou de fora: é — e isto parece inacreditável — extraordinariamente melhor do que o seu único disco oficial. A qualidade impecável dos dedilhados mantém-se, as melodias são ainda mais bonitas e mais tristes (só um exemplo: Goodbye to my loving you), mas o facto de o som não ser polido e de Frank não ter trabalhado a voz (que arranha na maior parte das canções) torna cada trecho ainda mais comovente. 

Por Deus, ouçam Mistery, Child fixin’ to die, Bull men, The spectre, Night of the blues (version 2) ou a descida à dor de On my way to the Canaan Land. É só um homem e uma guitarra — e muito, muito poucos fizeram tanto com tão escasso material. Talvez só Townes van Zandt, outro desgraçado genial que foi erradamente diagnosticado como esquizofrénico e tratado com choques eléctricos, tenha conseguido tocar tão fundo na ferida de onda brota a dor humana. 

O mundo é isto: cruel, absurdo e só tardiamente justo, ao ponto de podermos dizer que Jackson C. Frank é um daqueles raros espécimes que nos fazem acreditar que há quem morra pelos nossos pecados.

 

*****

Jackson C. Frank
Fixin’ To Die
Earth Recordings