Bill Watterson está de volta outra vez — ou não?

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O autor de Calvin & Hobbes voltou a dar notícias: são suas três das últimas tiras do cartoondiário Pearls Before Swine, incluindo esta que aqui vemos

Há três meses, quando o mais recluso dos cartoonistas norte-americanos aceitou dar uma rara — e, admitamos, totalmente inesperada — entrevista ao Ípsilon, o coração de várias gerações de incondicionais da tira Calvin & Hobbes ainda batia a um ritmo anormal: Bill Watterson tinha voltado a publicar um cartoon, o primeiro após 19 anos de silêncio absoluto, e teoricamente voltava a haver uma luz ao fundo do túnel longo e sombrio que engolira o miúdo impossível e o seu tigre de peluche no dia 31 de Dezembro de 1995. Pois bem, 2014 promete ser um ano impróprio para cardíacos: no sábado, soube-se que Bill Watterson publicou mais um cartoon (aliás: três cartoons que saíram anonimamente, nos passados dias 4, 5 e 6, literalmente ocupando a tira que Stephen Pastis criou em 2001 para o Washington Post e mantém actualmente em mais de 650 jornais em todo o mundo, a celebrada Pearls Before Swine). 

As notícias do regresso de Watterson — um recluso tão irredutível que a América lhe deu o título de “J.D. Salinger dos comics” — não parecem, portanto, ter sido completamente exageradas. Por enquanto, porém, não há novidades acerca dos planos que o autor tem para o seu futuro, nem qualquer pista acerca de possíveis novas acções-surpresa como esta que obrigou Stephen Pastis a agir como um agente secreto. “Foi o maior segredo que tive de guardar na vida”, disse ao Washington Post, confessando que a disponibilidade de Watterson para esta operação o deixou totalmente incrédulo: ter-lhe-ia parecido menos impossível chegar à fala com o creador do Snoopy e do seu amigo Charlie Brown, Charles M. Schulz (e sim, Pastis está “perfeitamente consciente de que ele já morreu”). 

Trabalhar com Bill Watterson, diz o ainda não totalmente refeito Stephen Pastis, foi “como receber uma chamada do Bigfoot”. Foi ele, na verdade, o primeiro a pegar no telefone, no início deste ano — para anunciar que estaria em Cleveland a lançar o seu novo livro. Na altura, não chegou a encontrar-se com Watterson, mas o autor de Calvin & Hobbes retomou então a sua velha ideia de um dia “assombrar” a tira Pearls Before Swine — onde, em tempos, Stephen Pastis chegara a queixar-se de querer desenhar como Watterson quando fosse grande —, usando o golpe de marketing para angariar receitas para o combate à doença de Parkinson. Quando recebeu a proposta por e-mail, Pastis respondeu apenas: “Caro Bill, farei tudo o que quiser, incluindo pegar fogo ao meu próprio cabelo.” Mas Watterson não exigiu esse género de sacrifícios humanos: quis apenas que a sua participação na tira não fosse revelada até sábado, o dia seguinte à publicação da terceira tira.

Foi uma parceria cega, explicou entretanto Watterson (sim, ele voltou a falar): “Eu não sabia o que ele ia escrever, e ele não sabia como é que eu ia desenhar.” Pastis sentiu-se “a editar o Papa”, mas ainda assim ganhou coragem para sugerir pequenas correcções: “Imaginem alguém a dizer ao Miguel Ângelo: ‘As mãos do David estão grandes de mais’ Foi exactamente assim.”