Opinião

A alma Peneda

Ao apelar ao compromisso para não se comprometer, Silva Peneda é o centrão em pessoa.

Há 20 anos, o presidente da comissão organizadora do Dia de Portugal chamava-se António Alçada Baptista. Há 10 anos, chamava-se João Bénard da Costa. Há cinco anos, chamava-se António Barreto. Actualmente, o presidente da comissão organizadora do Dia de Portugal chama-se José Silva Peneda.

Eu não tenho nada contra Silva Peneda, que é com certeza um senhor encantador. Mas tenho tudo contra péssimos discursos e contra a degradação intelectual do 10 de Junho, porque, independentemente do nosso nível de patriotismo e das piadolas acerca de condecorações, eu aprecio o país onde vivemos e a língua que falamos. E o Dia de Portugal serve para celebrar isso mesmo.

Após o falecimento de João Bénard da Costa em 2009, António Barreto assumiu a organização das comemorações durante três anos. Foi uma óptima escolha, embora da perspectiva de Cavaco Silva os discursos que Barreto foi proferindo entre 2009 e 2011 tivessem um grande defeito: eram demasiado bons quando comparados com os seus próprios discursos. No dia seguinte, a comunicação social falava mais das palavras de Barreto do que das palavras de Cavaco, e algumas mentes mais propícias a divagações começavam já a imaginá-lo, na sua quixotesca figura, a caminho de Belém. Com Silva Peneda, Cavaco não corre esse risco.

Em compensação, nós levamos com o pináculo da banalidade, o zénite do vazio, o esplendor do quixiligangue, tudo isto embrulhado em citações de Virgílio Ferreira (“quanto mais alto se sobe, mais largo é o horizonte”), Eduardo Lourenço, Miguel Torga, Alexandre Herculano, John Lennon (“um sonho que sonhes sozinho é apenas um sonho, um sonho que sonhes em conjunto com outros é realidade” – snif, snif) e do padre Tolentino Mendonça, culminando numa frase final em forma de escarabocho, capaz de levar Camões a vazar o segundo olho: “A sensação de felicidade não é tanto a de estar em cima, mas na forma de subir a rampa.”

E, no entanto, Silva Peneda parece tão feliz com o seu próprio pensamento que até arrisca o autoplágio. Eis Silva Peneda a 10 de Junho de 2013: “A história ensina que a concretização das ideias mais brilhantes aconteceu sempre como resultado da interacção entre os homens. Foi assim com a epopeia das Descobertas, com a chegada à Lua e com a revolução operada no mundo das telecomunicações.” Eis Silva Peneda a 10 de Junho de 2014: “A história da humanidade também nos diz que as vontades mais brilhantes concretizaram-se sempre através da interacção entre os homens. Foi assim, por exemplo, com a saga dos Descobrimentos e com a chegada do Homem à Lua.” As telecomunicações foram ignoradas.

Este é o mesmo Silva Peneda que anda mortinho por novos voos, à boleia da presidência do Conselho Económico e Social e do alto patrocínio de Cavaco Silva. Na segunda-feira, aproveitou a embalagem do 10 de Junho para dar uma entrevista ao Diário Económico onde se mostrava disponível para o lugar de comissário europeu. “Seria um desafio aliciante”, disse. Seria, até porque ao dançar tanto com a esquerda como com a direita, e ao apelar ao compromisso para não se comprometer, Silva Peneda é o centrão em pessoa. Que o seu discurso incolor, inodoro e insípido, típico dos políticos sabidões e da água destilada, seja o melhor que temos para oferecer ao país no Dia de Portugal, diz muito acerca desta terra – e da forma como nos conformamos à mais triste mediania e ao grau zero do pensamento.