Crítica

A frescura dos 50

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Tori Amos reage à crise da meia-idade com uma saudável leveza

Na adolescência, tomada por uma paixão desmedida por Robert Plant, Tori Amos esfriou a sua relação distante com gente de melenas mais compostas como Mozart, Chopin e Schumann, e encantou-se por uma música que lhe parecia verdadeiramente carnal e não apenas uma reinterpretação tecnicamente perfeita de obras com séculos em cima. E fugiu tanto quanto pôde desse mundo relativamente imóvel, por muito que as teclas do seu piano em ambiente de canções pop nunca disfarçassem com total eficácia os vestígios deixados pelo estudo de composições mais elaboradas.

De tanto fugir, deu por si num beco, depois de Midwinter Graces (2009). A sua pop foi seguindo caminhos cada vez mais áridos, resultando progressivamente mais baça, incapaz de repetir os tempos áureos de Under the Pink ou Boys for Pele, exemplos da sua mão mais declaradamente pop, por um lado, e de uma construção introspectiva que com sublime jogo de ancas evitava um choque frontal com uma banalidade etérea, por outro. Em boa hora, sentindo-se encurralada e com as novas canções a descambarem em sucedâneos deslavados da sua própria criação, Tori amos voltou-se para a Deustche Grammophon e reatou a sua relação com o mundo clássico.

Dedicou-se então a um ciclo de canções à boa maneira de Schubert em Night of Hunters, imaginou arranjos orquestrais para reportório antigo em Gold Dust (o que implicou reconhecer no seu passado aquilo que antes tentara desvalorizar) e compôs um musical chamado The Light Princess. Pelo caminho, deu um banho de frescura à sua escrita. Um dos efeitos obtidos por esse processo é uma relação mais desapegada com o piano — que não impera em permanência em Unrepentant Geraldines, como habitualmente.

Unrepentant Geraldines lima igualmente algum excesso de seriedade anterior às investidas clássicas, sendo assumido como resposta à crise de Tori Amos se ver chegada aos 50 anos. Mas reage-lhe com uma saudável leveza. Permite-se até ridicularizar a febre controladora da NSA num jocoso ambiente festivo que celebra a ligação entre a coscuvilhice da vizinha do lado às agências estatais. Precisamente, tanto em Giant’s rolling pin como em Rose Dover, é a Tori Amos da primeira metade dos anos 90 a emergir com saudável graciosidade. Talvez por, pela segunda vez, deixar que a sua filha adolescente, Tash, ilumine o disco com uma inflexão soul r&b que levanta Promise. A mesma Tash que, ao ouvir a mãe lamuriar-se da idade, lhe perguntou que raio de exemplo seria Tori se desistisse de ter um papel criativo no mundo por detectar mais um par de rugas ao espelho. Foi quanto bastou.