Cartaz do espectáculo
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Cartaz do espectáculo

Portulez convidou "pessoas criativas" a re-tocar José Mário Branco

Rui Portulez, o autor da ideia de fazer o concerto que sobe ao palco da sala Suggia no dia 20 de Junho explica como não há a maneira certa de fazer homenagens, mas antes certas maneiras de fazer concertos

Era para ser um concerto sobre o 25 de abril, mas acabou por ser “de certa maneira, um concerto para José Mário Branco”? Porquê “de certa maneira” e porquê José Mário Branco? Simplificando, como surgiu esta ideia?

Surgiu a propósito dos 40 anos do 25 de Abril. Como interpelar as pessoas e reflectirmos, todos, sobre os ideais de Abril, sem aquele ar de seca das cerimónias oficiais, sem o automatismo da obrigatoriedade, mas com entusiasmo, com discussão, com mobilização? Não há uma maneira certa, mas há "...uma certa maneira". E foi pensando nisso e na música, por defeito profissional, que rapidamente concluí que depois do Zeca Afonso, e antes de Sérgio Godinho, está o José Mário Branco. Um criador com uma obra fantástica (para além dos discos e das canções em nome próprio, tem também uma notável carreira enquanto produtor) e um cidadão interventivo e inspirador. Daqui a pensar num concerto de homenagem, com novas bandas a re-tocar a sua música foi um ápice. Mas além disso, pensei também na necessidade de actualizar os poemas de Abril e sob inspiração de Abril e do José Mário Branco, consegui contagiar 20 poetas e 20 ilustradores e fazer, com a parceria do João Paulo Cotrim e da Abysmo, o livro "40 x Abril", que é um complemento ao espírito do espectáculo.

E como reagiu o visado a esta homenagem? O JMB vai estar em palco?

Nunca tinha falado com o José Mário Branco, mas arranjei o número dele e combinámos um encontro. Passámos a tarde a conversar e ele foi impecável. Disse que não ligava nenhuma a homenagens, e que estava cansado do 25 de Abril, porque a ideia de Abril dele não se cumpriu. E que ninguém estava interessado em ouvir o que tinha para dizer. E eu disse-lhe o que pensava. Que as suas palavras estavam actuais, e que continuavam a fazer sentido e a inspirar as pessoas. Inevitavelmente, falámos do "FMI" que na minha opinião funcionava ainda hoje como um grito de revolta e de desespero, mas também como catarse para todos aqueles que não se reviam nas políticas injustas, nepotistas, descriminatórias e abusivas do governo. Falámos na possibilidade de ele estar em palco, não para tocar, coisa que recusou liminarmente, mas para conversar publicamente com um interlocutor à sua escolha. Infelizmente, não vai poder estar no concerto do Porto, pois está neste momento com uma agenda muito apertada em termos de trabalho.

Como foram seleccionados os grupos/intérpretes para participar?

A escolha das bandas obedeceu a uma ideia de ecletismo das propostas sonoras, das diferentes estéticas, e também da capacidade de reunir pessoas criativas e com vontade de embarcarem nesta aventura. Pessoas como o JP Simões, que já tinha feito uma versão do "Inquietação" e que encarna aqui o papel de cantautor sozinho em palco com uma guitarra; os Marfa, que recuperaram a tradição da canção de intervenção e são nesse sentido uma espécie de herdeiros genuínos da canção de Abril e do José Mário Branco; o Miguel Pedro e o António Rafael dos Mão Morta que ainda agora demonstraram a sua posição em relação à situação do país com o novo tema e vídeo "São horas de matar", que vão arriscar numa parceria com os Ermo, conterrâneos bracarenses, que já tinham revisitado o "FMI" num single; os Guta Naki que têm uma capacidade incrível de trabalhar as palavras e são uma banda inesperada e desafiante que faz um indie pop eclético de autor, com sentido de humor e poder crítico o Chullage que é amigo do José Mário e já o samplou e é um dos nomes de referência do hip-hop, canção de intervenção urbana; a Suzana Ralha e o Coro dos Gambozinos, que são amigos e já colaboraram com o Zé Mário e quiseram voltar a partilhar com ele a sua música; e os Batida, que vão ter o AF Diaphra, também conhecido como Biru, e o Manuel Pinheiro, dos Diabo na Cruz, que de certa maneira vão reinventar a música do JMB e retocá-la em balanço africano. Por fim, ainda ligando o concerto e o livro de poesia, e a força das palavras, um desafio que só poderia ter como destinatário um actor e dizedor imenso capaz de o abraçar, de forma intensa, vibrante e provocatória, alguém como o João Grosso, um dos maiores e mais importantes actores portugueses.

Há quanto tempo estão a preparar este projecto?

Desde o início do ano. Tem sido um processo moroso e complicado pois estamos a falar de muita gente, que aceitou partilhar o seu talento e o seu trabalho sem contrapartidas imediatas, com uma generosidade enorme. Porque gostam do José Mário Branco e porque o admiram, e também porque imediatamente perceberam a importância deste projecto, não só em termos artísticos mas também enquanto contributo necessário de agitação e interpelação da sociedade. E estas pessoas não são só os artistas, mas também a Opium, a Casa da Música e toda a equipa de produção, técnica, comunicação, que tornaram possível esta ideia tão simples mas também tão complicada de materializar.

O que pode ser desvendado sobre o alinhamento?

Ainda não podemos avançar com grande informação, pois as músicas estão em fase de construção, e todas as versões são novas e inéditas e construídas de raiz. A única certeza é que vai haver "Inquietação", no início e "FMI", no fim, e pelo meio a tentativa de provar que "A cantiga é uma arma" e que é sempre possível mudar de vida.

Há possibilidades deste espectáculo ser editado?

Estamos a tentar fazer um disco com este material, que funcione como um documento. Há alguns contactos mas nada de significativo. Estamos abertos a propostas, e sobretudo a partilhar o entusiasmo que atravessa todos os intervenientes.

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