Dois terços dos espanhóis querem referendo à monarquia

Sondagem mostra que apoio a um regime liderado por Felipe seria o preferido no caso de haver uma consulta.

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A sondagem confirma que Felipe tem actualmente uma melhor taxa de aprovação do que o pai, o ainda rei Juan Carlos Sergio Perez/Reuters

Quase dois terços dos espanhóis querem que, em algum momento, seja convocado um referendo para que possam decidir entre a manutenção da monarquia ou a instauração de uma república, revela uma sondagem divulgada pelo jornal El País, o que confirma o distanciamento entre o Parlamento – onde só dez por cento dos eleitos apoia a realização de uma consulta – e os eleitores nesta matéria.

Apesar de quererem ser ouvidos sobre a natureza do seu sistema político, quase metade dos inquiridos (49%) afirmam que, no caso de um referendo, votariam a favor de uma monarquia encabeçada pelo ainda príncipe Felipe, contra 36% que apoiariam uma república liderada por “uma figura pública relevante”.

O apoio à organização de uma consulta é maior entre os mais jovens – os que não ainda tinham nascido ou eram demasiado jovens para votar quando foi referendada a actual Constituição, em 1978. Três quartos dos inquiridos entre os 18 e os 34 anos querem um referendo, uma percentagem que desce para os 52% entre os que têm mais de 55 anos.  

A sondagem divulgada pelo El País, a primeira desde que, na segunda-feira, o rei Juan Carlos anunciou a abdicação, confirma que a exigência de um referendo é maior entre os eleitores de esquerda. Cerca de 98% dos apoiantes da Esquerda Unida, partido que integra o único grupo parlamentar que votará nas Cortes contra a lei que efectiva a abdicação, querem ser ouvidos. A distância entre eleitores e eleitos é maior no caso do Partido Socialista, que, apesar de algumas vozes dissonantes, assegurou que se manterá leal ao pacto constitucional. Contudo, 68% dos seus apoiantes defendem a convocação de um referendo.

Já no caso do Partido Popular, no Governo, 60% dos seus eleitores mostram-se satisfeitos com a actual solução, considerando dispensável uma consulta para decidir sobre quem será o chefe de Estado.

A sondagem confirma também que o príncipe Felipe inspira actualmente mais respeito do que o pai: obtém uma pontuação de 7,3 numa escala de 10, conseguindo igualmente apreciações mais elevadas entre os eleitores mais velhos e de direita. Ainda assim, a abdicação parece ter contribuído para uma subida na aprovação de Juan Carlos – que obtém uma pontuação de 6,9 –, tanto que a esmagadora maioria dos inquiridos (83%) concorda com a sua decisão de abandonar o trono ainda em vida e 60% considera que ele escolheu o momento certo para o fazer.

Depois do anúncio surpresa de Juan Carlos, de quem sempre se disse que nunca abdicaria, a sucessão avança a ritmo acelerado. Terça-feira o Governo aprovou a lei orgânica exigida pela Constituição para a transferência de poderes, que será votada já na quarta-feira na Câmara dos Deputados, dias antes de o Senado também se pronunciar. O diploma deverá ser aprovado com os votos do PP, PSOE, dos centristas da União Progresso e Democracia e de algumas formações mais pequenas e com a abstenção dos nacionalistas bascos e catalães. Felipe será proclamado numa sessão conjunta das duas câmaras das Cortes no dia 19, assumindo o título de Felipe VI de Espanha.

Seguindo a coreografia preparada com semanas de antecedência pelo palácio real, Juan Carlos e Felipe surgiram novamente juntos em público, presidindo neste domingo a um desfile militar por ocasião do dia das Forças Armadas. Durante a cerimónia, vários populares gritaram vivas ao rei e ao príncipe e, na recepção que se seguiu o ministro da Defesa espanhol, Pedro Morenés, brindou a Juan Carlos como “o primeiro soldado de Espanha”.