Editorial

Ser primeiro-ministro não é um prémio

Assis diz que Seguro “merece” ser primeiro-ministro. Seguro diz que fez “o caminho das pedras”.

O Partido Socialista, um partido histórico e o maior da oposição, ganhou as últimas europeias e as últimas autárquicas. Internamente, estão a ser feitas duas leituras deste facto: os resultados de Maio são a segunda vitória consecutiva do PS, prova de que o partido é uma alternativa sólida de governo; os resultados foram um desastre, porque depois de três anos de austeridade a distância entre PS e PSD — 123.435 votos — deveria ter sido muito maior.

Como a abdicação do rei Juan Carlos, que em Espanha provocou comoção mas não surpresa genuína, António Costa enviou um SMS a António José Seguro na própria noite eleitoral dizendo-lhe que lhe queria falar. O resultado da conversa é do conhecimento público. Costa quer ser o líder do PS e quer governar Portugal.

Esta sexta, disse ao que veio. Quis mostrar que há diferenças em relação a Seguro. No tom, no estilo e na forma. Não é claro como isto vai acabar. Claro é o crescente afastamento das distritais do PS em relação a Seguro e a aproximação a Costa. Ontem, passaram a ser quatro em 21 as distritais que pedem um congresso já para resolver a disputa, em vez de umas primárias daqui a quatro meses. Faltam sete para Seguro ser forçado a convocar um congresso. Neste momento, isso não parece impossível.

As primárias oferecem problemas óbvios. Desde logo, o facto de não haver tradição em Portugal. À excepção do Livre, um microcosmos, nunca houve primárias no país. Os portugueses não sabem como funciona, não há uma rotina, não há precedentes. Não é por isso que não se devem fazer primárias. Mas usar um mecanismo estranho num momento de crise é como termos a casa a arder e, em vez de agarrarmos no extintor, convocarmos uma reunião de condomínio para discutir como apagar o fogo.

Além disso, as primárias impõem uma logística pesada e muitas decisões. A começar pelos cadernos eleitorais, que não existem. Não vão votar apenas os militantes, mas também os que se inscrevam como simpatizantes e eleitores socialistas. A seguir, há a campanha interna formal e, no dia do voto, urnas em pelo menos 712 mesas de voto. Tanto as listas como os resultados podem levantar dúvidas e ser impugnados. Em Outubro podemos ainda não ter uma solução estável no PS. Conclusão: nos próximos meses, o trabalho dos socialistas vai ser um só: fazer ganhar o seu homem.

Seguro diz que fez “o caminho das pedras” quando não era apetecível ser-se líder da oposição e Assis diz que ele “merece” ser primeiro-ministro depois de três anos a combater o Governo.

Mas ser-se primeiro-ministro não é uma herança deixada em testamento. Ser primeiro-ministro não é um prémio de esforço, nem um prémio de consolação. Não é um cargo que se “merece” ou não ter. Não é uma consideração. Pensar assim é inverter a lógica da própria política. É admitir que a política é um puro jogo de conquista do poder.