Costa e Seguro: de escaramuça em escaramuça até ao confronto final

Próximos meses no PS serão dominados por votações em reuniões internas e escrutínios distritais. Um processo lento que fará das primárias um dos momentos finais da disputa socialista.

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António Costa e António José Seguro longe do tempo dos abraços Enric Vives-Rubio

Será em Ermesinde que se vai travar a próxima batalha pela liderança no PS. No rescaldo da reunião da comissão política do PS, realizada quinta-feira no Largo do Rato, a percepção da direcção socialista era de mais uma refrega conquistada a António Costa. “No Vimeiro, foi um-zero. Ontem, foi o dois-zero. Na próxima [reunião da] comissão nacional [a 22 de Junho] será o três-zero”, confidenciava um apoiante do actual líder.

O secretário-geral fez aprovar a data de 28 de Setembro para as primárias com apenas seis votos contra e duas abstenções num universo de cerca de 60 votantes. Apesar da objecção da facção costista – que defendeu a realização das primárias no final de Julho –, a maioria acabou por votar a favor. O adversário declarado de Seguro, António Costa, saiu da reunião assumindo-se pronto para ir a jogo contra a actual liderança, depois de ter entregado uma declaração de voto em que classificava a marcação das primárias para Setembro como um “erro político”. Manteve, porém, a intenção de fazer votar na reunião da comissão nacional, já agendada para dia 22 em Ermesinde, a realização de um congresso extraordinário e eleições directas para secretário-geral.

O parlamento interno socialista assistirá, portanto, a mais uma batalha da guerra civil que grassa no principal partido da oposição. A direcção conserva o optimismo em relação ao terceiro embate interno. “O congresso extraordinário vai ser chumbado e vão ser aprovadas as datas para as eleições federativas”, resumiu ao PÚBLICO um apoiante de Seguro.

Mais um passo na estratégia definida de protelar o confronto decisivo entre os dois socialistas que implica, assim, realizar eleições para as distritais no início de Setembro e primárias no final desse mês. Até lá, Seguro mantém-se como o candidato do PS a primeiro-ministro.

Essa é a leitura do ex-eurodeputado Capoulas Santos, que foi um dos que votaram contra a proposta das primárias. Não porque estivesse contra o processo, mas devido ao timing definido por Seguro. “Se se cumprir o calendário que o secretário-geral apresentou, vamos ter quatro meses de primárias. Depois disso, teremos outros três meses até um próximo congresso. Vamos estar a discutir a liderança do PS durante seis meses. O secretário-geral não quis em Julho por causa do futebol, mas em Dezembro temos o Natal…”, lembra Capoulas Santos. Por isso vê outra razão para o calendário. “Podemos estar na iminência da precipitação de uma crise política… Isto é para ganhar tempo na expectativa de que a Assembleia da República seja dissolvida e Seguro seja o candidato a primeiro-ministro do PS”, acusa.

O risco de o PS ser apanhado sem liderança durante uma crise política foi, precisamente, uma das razões apresentadas para a facção costista defender primárias no final de Julho. Sintomática foi a resposta do líder parlamentar, Alberto Martins, no final da reunião. “O secretário-geral e os órgãos dirigentes do PS estão na plenitude das suas funções”, disse.

A direcção contesta as críticas de protelamento com o argumento do cumprimento das regras e calendários. A proposta de Seguro enumera essas obrigações: concepção de um “regulamento eleitoral” para as primárias até 30 de Junho, “preparação dos cadernos eleitorais” durante Julho e “divulgação das regras de modo a mobilizar potenciais votantes” entre Julho e Setembro.

Mas na reunião da comissão política não se abordou o segundo campo de batalha da disputa. Sobre os congressos distritais “nem uma palavra”, confirmou um dos socialistas que participaram no encontro. Da parte da direcção, esse silêncio foi justificado com o facto de esse processo ter de ser aprovado na comissão nacional.

Foi esse o tema central da reunião dos presidentes das federações distritais que se encontraram com Miguel Laranjeiro, horas antes da reunião da comissão política. De acordo com o que o PÚBLICO apurou, houve “unanimidade” entre os líderes distritais no apelo à direcção para que “não misture os processos” das primárias com as eleições distritais por serem questões diferentes, com “universos e destinatários de mensagem diferentes”. Realizar ambos em Setembro “poria em causa a autenticidade das primárias”, alertou um dirigente distrital. O problema é que a direcção parece pretender fazer das eleições distritais a primeira ronda do confronto final.