Uma geração que se descobre no Inverno

"Uma Rapariga no Verão"
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"Uma Rapariga no Verão"

A “vida invisível” que passa por aqui é também a vida de uma geração, a que se revelou no final dos anos 80, que se descobre no Inverno.

Até aqui, Vitor Gonçalves era o cineasta de um Verão, do Verão da rapariga que dava título à sua longa-metragem de estreia, nesse remoto ano de 1986. “Estreia”, neste caso, e isso também nos lembra o que foram os anos 80 do cinema português e o panorama que acolheu a geração de realizadores que nessa década despontou, é palavra que tem que ser matizada: Uma Rapariga no Verão nunca chegou ao circuito comercial, ficou-se pelo vai-vem efémero dos festivais, das exibições na Cinemateca (onde ainda em 2012, num contexto de “primeiras vezes” no cinema português, Vítor Gonçalves esteve a apresentá-lo e a discuti-lo), das ocasionais exibições televisivas – e agora, finalmente, em três sessões em salas comerciais, dia 6 de Junho, às 22 horas, no Teatro Municipal Campo Alegre no Porto, e nos dias 11 e 12 de Junho, às 19h15, no Espaço Nimas em Lisboa.

Vinte e sete anos sem reincidir numa longa-metragem para cinema: talvez não faça sentido (ou talvez faça, não sabemos) dizer que este tempo foi um “Inverno” para o realizador. Mas em face deste belíssimo A Vida Invisível, quer na sua poesia escura refugiada em interiores protegidos da luz, quer, e muito materialmente, no seu trabalho sobre as estações do ano, faz completo sentido dizer que Vitor Gonçalves se revela também um cineasta para o Inverno, um cineasta para todas as estações.

Impossível, perante ele, não fazer raccords com o tempo por trás destes 27 anos de “vida invisível”. Não fazer raccords com a Rapariga, em primeiro lugar, filme atordoado tanto por uma forma de alegria conjugada no presente – a da juventude e dos amores, a do sol, a do mar, a dos pinhais – tanto quanto atordoado, já, por diversas sombras, o terror da idade adulta, o dia em que os filhos serão, por sua vez, pais, e a morte de uma figura paternal como momento, mais do que simbólico, dessa passagem. Dir-se-á que aí Uma Rapariga no Verão participava bem no espírito do que foi um dos temas centrais de tanto filme dos realizadores portugueses que se estrearam nesses anos da dobra da década de 80 para a de 90, de Manuel Mozos a Pedro Costa, a Joaquim Pinto e Teresa Villaverde e a vários outros, um adeus à adolescência doloroso, prolongado e renitente, e ao mesmo tempo resignado. E de resto, muitos deles estavam na Rapariga, à frente e atrás das câmaras, nas mais variadas funções: Joaquim Leitão (no mesmo ano de Duma Vez Por Todas), Pedro Costa, Ana Luísa Guimarães, Joaquim Pinto. Era portanto, objectiva e subjectivamente, um filme onde o presente – o presente de 1986, mas também o “presente eterno” das imagens do cinema – se abria como uma plataforma virada para o futuro.

Não é dizer que A Vida Invisível seja a perfeita imagem especular desse filme e dessa promessa, mas é um filme onde o presente, se se abre a um tempo futuro (aquela “aurora”, o ecrã todo branco, com que o filme fecha depois do paralítico sobre o protagonista), fá-lo depois de uma dura luta contra o passado, contra um tempo fantasmático e insidioso que invade tudo, domina tudo, e puxa tudo para esse outro tempo, cuja matéria é a memória e a assombração. É um filme sobre um homem (a personagem de Filipe Duarte) que precisa de um filme inteiro para aprender a viver no presente, a desfazer as amarras do passado – e a “desfazer” a narrativa do filme, de certa maneira, remetida do domínio dos “factos” ao domínio dos “fantasmas”. É um filme sobre uma Lisboa em curta escala, do Terreiro do Paço (filmado como nunca se filmou) aos edifícios da zona da Expo 98, com o rio a cortar o horizonte, a fazer de parede tão interior como as paredes dos interiores em que A Vida Invisível maioritariamente se passa (extraordinário plano, aquele da vidraça sobre o rio que em vez de “abrir”, “fecha”, e marca toda a distância entre o protagonista e a rapariga, Maria João Pinho, vinda dum Verão passado). É um filme sobre uma memória de cinema: os super 8 achados pelo protagonista, filmados pelo seu mentor (João Perry) e que tanto o inquietam – será exagero ver neles, naquela granulação própria do formato, acentuada pela pós-produção e pelo contraste com a natureza digital da imagem de A Vida Invisível, e naquelas imagens sem data da paisagem dos confins da Escócia, montanhas, lagos, mares, uma espécie de memória distorcida da própria Rapariga no Verão, da sua paisagem tanto como da sua natureza fílmica (os 16mm, caídos em desuso muito antes dos 35mm)?

Mas ainda, e por essa presença real do cinema dentro do filme, a juntar ao nome do mentor (António), como não pensar numa figura essencial para Vitor Gonçalves e para a generalidade dos seus parceiros de geração, António Reis? Ou mesmo, e porque não, João Bénard da Costa? Porque é também este o território do filme, o território da sua irredimível solidão: o tempo em que os “protegidos” descobrem, com um certo pavor, que já não têm quem os “proteja”, que chegou o tempo deles serem o que os outros foram – como, de resto, praticamente verbaliza a personagem de Filipe Duarte. A “vida invisível” que retine dentro de A Vida Invisível passa por aqui: é igualmente uma vida de cinema, a vida de uma geração que se descobre no Inverno.