Jovens casais estão a deixar periferias e a regressar à cidade de Lisboa

A tendência não está a ser acompanhada pela construção de casas novas, mas sim pela reabilitação de imóveis antigos.

A chegada a Lisboa é uma das atracções dos cruzeiros
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A chegada a Lisboa é uma das atracções dos cruzeiros Miguel Madeira

Os jovens casais estão a deixar as áreas metropolitanas de Lisboa e a regressar à cidade para morar, optando por reabilitar casas antigas, revela um estudo de uma agência de publicidade nacional.

“Em Lisboa há alguns factos curiosos, porque o que estamos a assistir é a um regresso dos jovens casais a Lisboa”, afirmou à agência Lusa o director-geral da agência de publicidade e marketing BBZ, Vítor Tito, referindo que as pessoas estão a deixar as zonas periféricas e “começam a valorizar o facto de poderem viver perto de onde trabalham”.

De acordo com o responsável, isto deve-se também a uma óptica de custos, “porque viver na margem sul começa a ser relativamente caro – as portagens, o combustível, as deslocações… e a rede de transportes públicos não é solução”, explicou.

O estudo sobre o potencial do mercado da renovação, que incidiu também sobre os residentes da Grande Lisboa e sobre as suas principais motivações para realizar obras, foi apresentado nesta quinta-feira em Lisboa, numa sessão que contou com a presença do presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), António Costa, do vereador do Urbanismo da autarquia, Manuel Salgado, do Bastonário da Ordem dos Arquitectos, João Santa-Rita, do Bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Alberto Matias Ramos e do Presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), José António Barro.

Vítor Tito indicou que esta tendência não está a ser acompanhada pela construção de casas novas, mas sim pela reabilitação de imóveis antigos. Assim, os jovens casais optam por comprar uma casa por 50 ou 60 mil euros para a renovarem.

Questionado sobre as zonas mais escolhidas por estas famílias, o representante disse que “o conceito de reabilitação urbana relacionada com as zonas históricas desapareceu”, apontando que nas Avenidas Novas, em Campolide e em Campo de Ourique há “um número significativo de habitações devolutas”, pelo que são estes os bairros mais procurados.

Vítor Tito acrescentou que o concelho com mais habitações com condições para serem renovadas é Santarém, seguido de Setúbal e só depois surgem os da Grande Lisboa.

O director-geral da BBZ assinalou, contudo, que persistem problemas neste processo, como um “distanciamento efectivo entre os arquitectos e os consumidores” e relacionados com os “custos financeiros” das obras.

Para solucionar estas e outras questões, a CML criou o programa RE9, que apresenta benefícios fiscais para os moradores que pretendam fazer obras em casa, assim como acordos com a Ordem dos Arquitectos e com o banco Montepio, para as financiar, entre outras entidades.

O vereador Manuel Salgado esclareceu hoje à Lusa que este programa permite “fazer pequenas intervenções no município”, criando assim um movimento que tem por fim “tornar a reabilitação mais atractiva” e ainda levar a que cada vez mais pessoas se fixem na cidade, que conta actualmente com 500 mil habitantes.

“Lisboa tem-se despovoado” e ainda “há pessoas que vivem em casas em mau estado”, indicou o autarca, adiantando que quer inverter esta tendência, para que a cidade se torne “mais viva e mais sustentável”.

Para o estudo foram inquiridas 800 pessoas de todo o país, das quais 47% afirmaram ter intenções de fazer estas obras.

Cerca de mil outras pessoas, com propensão para a renovação, foram inseridas em quatro focus group, e a maioria indicou que as áreas da casa que mais quer renovar é a cozinha, a casa de banho e a sala.

“Há um fenómeno que chamamos cocooning, ou seja, numa altura de crise, as pessoas vivem muito mais dentro de casa, [pelo que] se reduzem o número de refeições que fazemos fora de casa, e muitas vezes substituímos o jantar fora com os amigos por um jantar feito em casa” com os mesmos, justificou Vítor Tito, salientando que as áreas privadas da casa são vistas como “uma segunda prioridade”.