Crítica

Sabotando os clássicos

Jack White acrescenta a sua turbulência às suas formas de sempre: rock’n’roll, folk, country e blues

Muito se tem falado de Jack White, o homem que há 15 anos inventou os White Stripes com a agora ausente em parte incerta Meg White. Mexericos, é disso que se tem falado: um e-mail privado trocado com a ex-mulher Karen Elson durante o processo de divórcio foi tornado público pela imprensa tablóide; nele, White lançava um chorrilho de insultos a Dan Auerbach, dos Black Keys, e ficou o circo instalado. Pediram-se reacções ao guitarrista dos Black Keys, publicaram-se as reacções razoavelmente diplomáticas, Jack White lá acabou por apresentar desculpas pelas palavras privadas lançadas a debate público e pediu que nos concentrássemos no álbum sem a aura de negatividade a rodeá-lo.

O álbum? Exacto. Jack White tem um álbum novo, o seu segundo a solo. Tem por título Lazaretto, nome dado às instituições onde os viajantes, habitualmente chegados por mar, eram obrigados a cumprir quarentena antes de avançar pelo território. Dado o prazer assumido por White em manter uma aura de mistério e de reclusão, imaginando-se (e querendo que o imaginemos) homem fechado no seu estúdio, enfiado no seu fato vintage a carregar em botões de máquinas criadas por Nikola Tesla enquanto não é tempo de gravar um par de canções com quem quer que seja, o título parece apropriado. A música é-o igualmente.

Os White Stripes já não existem, os Raconteurs e os Dead Weather vão existindo. Neste momento, porém, é um pouco indiferente quem White decide creditar nos seus discos. A sua personalidade musical impõe-se, o seu temperamento contamina as canções e depois surge algo como este Lazaretto, álbum superior ao desequilibradoBlunderbuss, a estreia em nome próprio editada em 2012. Ou seja, um disco em que se impõe o classicismo das formas (o rock’n’roll como definido na década de 1970; a folk e a country; o blues para guitarra ginchar ou para piano chora), mas às quais White apõe uma turbulência que nunca soube ou quis serenar e um ambiente sinistro construído tanto em fúnebres melodias de piano quanto em silvos de theremin ou nos solos de guitarra em electrocussão. É um clássico, indiscutível e convictamente, mas com fato à sua medida — não confundimos White com nenhum outro.

E, assim, Three woman introduz-nos no novo álbum com groove Sly & The Family Stone, órgão a fervilhar em fundo e acordes e explosividade blues-rock. A segunda canção, o tema-título, é zangada, convulsiva, com a voz a queimar nos agudos, urgente, e a multiplicar-se enquanto surge um violino que fará a ponte entre os riffsconturbados e o folk-rock da Rolling Thunder Revue de Bob Dylan. Depois dela surge Temporary ground, com o piano a dançar entre as respostas que o violino e a voz de Lillie Mae Rische, presença marcante no álbum, dão aos comandos de White — é canção que os Fairport Convention poderiam ter gravado para Liege & Lief, desse-se o caso de serem americanos e não britânicos a vasculhar a tradição das suas ilhas. É uma sequência irresistível — estamos conquistados (mas o efeito não tarda a ser posto à prova). Isto porque Would you fight for my love, a mais desinspirada do álbum, parece uma canção de marinheiros minada por acessos hard-rock de pacotilha e sobressalta-nos a viagem de forma não desejada. Mero passo em falso, porém. Jack White não demora a entrar nos eixos (os seus) novamente.

Ouvir-se-á High ball steeper, instrumental garage-rock com piano martelado furiosamente, guitarra incandescente e uma voz cantando como sereia — é lama blues a transformar-se em lava e assistir à transformação entusiasma. Daí para a frente, Jack White será baladeiro tétrico confessando “I’m sick of being told what to do”, será líder de festa muito lúdica, dancemos todos juntos e estão todos convidados (o boogie dos Faces em Just one drink), será o cantor que incute perversidade numa canção de embalar chamada Alone in my home (“I’m becoming a ghost/ so no one can know me”). 

Entre a canção enquanto casa de mil divisões (e outras tantas surpresas em cada uma delas), como a turbulenta Black cat licorice, e o despojamento instrumental da despedida (essa quase torch song que é Want and able), sobressai sempre um prazer evidente que é, também, uma luta. Jack White, o historiador, o conhecedor profundo e defensor empenhado das velhas tradições, dá vida de forma exemplar a esse fascínio e a esse conhecimento. Mas o que torna a sua música verdadeiramente interessante é um turbilhão interior que parece consumi-lo e um certo negrume que contamina e guia a música que cria. Pois bem, Lazaretto reflecte-o como poucas vezes ouvimos desde o fim dos White Stripes.