Crítica

Emocionante Gil Scott-Heron

Há duas semanas, passaram três anos sobre a morte do americano Gil Scott-Heron. Poeta, cantor, figura icónica da música popular e autor de inúmeros álbuns marcantes, foi também a consciência da cultura negra desde os anos 1970. 

Em 2010, depois de mais de 15 anos sem lançar nenhum disco, regressou com o surpreendente I’m New Here, um disco inspirado que o revelou a novas gerações — no ano seguinte, o inglês Jamie xx (do grupo The xx) haveria de recriar os temas desse disco, resultando daí novo álbum, intitulado We’re New Here. O grande responsável por esse regresso foi o produtor Richard Russell, também responsável pela editora XL Recordings. É também dele a responsabilidade por esta edição póstuma, Nothing New, uma colecção de canções registadas em Nova Iorque na mesma altura em que foi gravado o álbum de retorno.

Não são temas originais. São recriações para piano e voz de canções (com interlúdios pelo meio, onde Gil Scott-Heron reflecte sobre a sua vida e obra) do seu cancioneiro particular, a maior parte delas não muito conhecidas. Não é certo que este disco alguma vez visse a luz do dia se ainda fosse vivo, mas ainda bem que temos acesso a ele agora porque, apesar do seu ar algo artesanal, constitui um tremendo testemunho da força emocional que pode emanar da voz e das palavras de Gil Scott-Heron.

A sua voz é grave, imperfeita e vivida, as notas de piano simples; existe muito espaço a habitar as palavras, mas o todo é uma experiência tocante. Aqui a soul, o funk, o jazz ou os blues, todas essas tipologias que abordou, são condensadas em notas de piano soltas e naquela voz humana, verdadeira, sentida. Mais do que uma homenagem, acaba por ser uma outra forma de olhar a sua música, humanizando-o ainda mais, se tal é possível.