O que gostaria de sussurrar a Van Gogh?

Pode soar estranho, literalmente. Uma réplica da orelha de Van Gogh foi criada com células de um familiar do pintor e está exposta na Alemanha.

Foto
A réplica da orelha com células vivas THOMAS KIENZLE/AFP

Vincent van Gogh deixou-nos alguns auto-retratos e, em 1889, fez mais um, desta vez de orelha enfaixada. Após algumas versões dos factos em torno do corte da sua orelha, acrescenta-se agora mais um ponto à história: com um microfone, os visitantes do Centro de Arte e Media, em Karlseuhe, Alemanha, podem falar com uma réplica da famosa orelha do pintor feita de células vivas, concebida pela bioartista Dietmut Strebe, que costuma utilizar materiais biológicos nos seus trabalhos.

Para esta orelha, em exposição até dia 6 de Julho, usaram-se células vivas da cartilagem de Lieuwe van Gogh, tetraneto de Theo van Gogh, irmão do pintor holandês. A intenção de Dietmut Strebe era a de utilizar material genético do próprio Vincent van Gogh, obtido de um envelope que o pintor teria lambido em 1883.

Inicialmente, pretendia-se incorporar esse ADN do pintor em células vivas de Lieuwe van Gogh e construir a orelha. Tudo parecia em andamento, mas os testes genéticos ao ADN que ficou no envelope revelaram que, afinal, quem lambeu o envelope foi outra pessoa. Assim, a solução encontrada passou apenas pelas células de Lieuwe van Gogh.

Cientistas no Brigham and Woman’s Hospital, em Boston (EUA), cultivaram-nas em laboratório, para se obter uma quantidade suficiente que permitisse construir uma orelha em tamanho real. Depois, as células receberam a forma da orelha cortada de Van Gogh, com o recurso a uma impressora 3D.Para os que se interrogam de que forma as células da orelha estão a ser mantidas vivas, eis a resposta: com nutrientes colocados numa solução.

E se alguém sussurrar a esta orelha de Van Gogh, por um microfone, ela até “ouvirá” o que lhe disserem, através da simulação dos impulsos nervosos originados por esses sons. Resultado desta simulação em tempo real para os visitantes: uns estalidos.

Texto editado por Teresa Firmino