Crítica

Irmão, Onde Estás?

É facilmente um dos mais peculiares “documentários rock” vistos nos últimos anos, e por certo o mais divertido. Para o ser basta-lhe esquecer-se dos trâmites habituais do género - embora, acompanhando a banda “on the road” e em estúdio, os referencie - e introduzir um elemento distintivo e bastante original: a questão familiar, a história de um irmão a olhar para outro. Tom Berninger, o realizador, é o irmão mais novo de Matt, vocalista dos The National e, hoje, década e meia depois do arranque do grupo, um ídolo para multidões de dimensão muito razoável. Esse é já um dos elementos do filme: é que se Matt abandonou a casa familiar no Ohio em busca do sucesso, conseguido, na “grande cidade” (Nova Iorque, ou mais precisamente Brooklyn), Tom não ata nem desata, sem emprego fixo, sem sair de casa dos pais, sem completar nada do que inicia. Numa mistura de puro amor fraternal e complexo de culpa irmão mais velho, Matt contratou Tom para “roadie” da digressão que os National fizeram ao seguir ao lançamento de “High Violet”. E Tom foi na digressão, munido de uma câmarazinha digital e imbuído do espírito de repórter oficioso. A coisa correu mal, dada a incompetência de Tom nas funções para que foi contratado: acabou despedido, mas com o material que guardou na câmara ficou com material suficiente para montar um filme. E montou-o, incentivado pelo irmão, história que também se vê em “Mistaken for Strangers” como se o filme fosse em simultâneo o seu próprio “making of”.


A relação entre os dois irmãos, o mais velho que faz um grande esforço para ser “responsável” (e praticamente só escreve canções sobre isso) e o mais novo naturalmente estouvado, toma conta do filme, é o seu fio condutor e, mais do que isso, o seu centro, relegando a pouco e pouco para um canto os procedimentos (as cenas de concertos, os interins da digressão) que se esperam de um filme ancorado numa banda rock. É um pequeno festival de inconveniência e situações embaraçosas, humor “self-deprecating” que às vezes parece demasiado bom para não ter sido minimamente pensado, e que, pelo caminho mais longo, acaba por reencontrar, inesperadamente, muito do espírito das canções dos National. Não é preciso ser fã do grupo para encontrar prazer neste filme, basta não se ter aversão.