“Sou a favor de canções com retratos reais”

Com apenas 17 anos, Lorde confirmou no Rock in Rio a força de uma pop pouco alinhada com a superficialidade.

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Lorde no concerto no Rock in Rio Agência Zero

Sabia-se por antecipação que, mesmo com Robbie Williams, Arcade Fire ou Justin Timberlake, o Rock in Rio de 2014 seria dos Rolling Stones e do seu frenesim blues/rock’n’roll. Numa espantosa demonstração de como se esquivar da passagem dos anos, canções e músicos (sobretudo Mick Jagger) pareciam desafiar as regras básicas do ciclo biológico aplicáveis na passagem pelo planeta. E fizeram-no com o espalhafato que tal empresa exigia. Daí que, em sentido contrário, tudo no concerto da adolescente neozelandesa Lorde, passados dois dias, tenha parecido ainda mais extraordinário.

Carregando consigo um quarto da vida de Jagger ou Keith Richards, os 17 anos de Lorde, nascida Ella Yelich-O’Connor foram, na verdade, mais longe do que os Stones. Sem qualquer recurso a espectacularidade, apresentou-se num palco habituado a todo o tipo de fogo-de-artifício, big bands e contas avultadas de electricidade, com canções quase despidas, belíssimas na sua minimalidade, sobrevivendo e conquistando uma multidão sem truques na manga para lá de uma confiança assombrosa, uma voz cheia de brilho e um reportório curto mas absolutamente seguro. Uma pop sem outra grandiosidade que não seja a de Ella.

A causa parece simples e explica-se em dois pontos. Por um lado, Lorde vem da Nova Zelândia, terra que, garante a cantora, é pouco dada à cultura de celebridades, pelo que a simplicidade das suas canções e a sua eficácia junto de milhões não a tornou hiper-ambiciosa em relação à sua projecção de estrela pop em palco. Por outro, conforme explica ao PÚBLICO um par de horas antes da sua actuação no Rock in Rio, a sua criatividade está, antes de mais, ao serviço das letras. “Escrevo as letras e só depois crio música à sua volta, mas tão simples quanto possível, para que aquilo que estou a cantar se perceba e chegue às pessoas”, diz. “Talvez a minha música seja muito minimal por essa razão, por ser movida pela letra. Se não gostasse tanto de música provavelmente escreveria poesia.”

E aquilo que chega através das suas letras está em sintonia com as declarações que Ella foi soltando durante o último ano, sem os filtros e as práticas recomendadas por ter passado a fazer parte, repentinamente, do circo pop. Justin Bieber por não retratar fielmente a vida de um adolescente, Taylor Swift por cultivar uma imagem de princesa de contos de fadas, perfeita e inacessível, Selena Gomez por cantar noticiando a sua disponibilidade sexual, todos foram alvo de comentários de Lorde, com a inocência e a postura refrescante de quem acha que não deve pedir desculpa por ter opiniões. Num ano, aprendeu a ser mais comedida na sua crítica a uma pop em que continua a reconhecer “um forte elemento de superficialidade”. “Se todas as canções fossem sobre o aquecimento global seria pop na mesma?”, questiona-se no camarim do Rock in Rio. Mas, na verdade, aquilo que surpreendeu Lorde foi ver-se sozinha, perceber que, à excepção de Lily Allen, o seu desprendimento e as suas críticas pareciam ecoar de tão isoladas.

Tudo isto está inscrito mais ou menos explicitamente nos temas compostos por Lorde para o seu disco de estreia, Pure Heroine. Royals, o enorme sucesso que a tirou da Nova Zelândia e lhe garantiu um milhão de singles vendidos nos Estados Unidos, é já um desabafo de desilusão com a opulência desmedida que toma conta de uma pop actual que se esquece de criar uma ligação com os miúdos a quem se dirige, assentando antes numa necessidade de viver dentro de fantasias de luxo ou de estranho apelo à deificação através de uma clara diferenciação de universos que não se tocam – músico e público. “Sou muito a favor de canções pop com significados e retratos reais”, garante. “Mas não todas, claro, senão seria muito aborrecido.”

A ascensão

Tudo tem sido meteórico e revelador da sua fibra no percurso de Ella Yelich-O’Connor enquanto Lorde. Depois de descoberta num concurso de canto pela Universal neozelandesa quando tinha apenas 12 anos, assim que a editora esfregou as mãos para capitalizar um talento bruto que poderia moldar à sua maneira, logo lhe saiu o tiro pela culatra. Quando assinou pela multinacional, Ella, que nunca tinha composto uma canção em toda a sua vida, fez saber que só aceitaria gravar um disco escrito por si. Esse primeiro disco, The Love Club EP, foi lançado em 2013 e antecedeu Pure Heroine, levando-a a perceber que a sua criatividade era desencadeada por gente como Timbaland e Kanye West, embora acabe por desaguar num conjunto de canções de uma outra riqueza melódica e que, não sendo revolucionário, não denuncia obsessões pessoais nem soa derivativo.

Há apenas dois anos, Ella admitia para si mesma que aquele “hobby muito intenso” a que se dedicava fora das aulas era algo que não parava de conquistar espaço na sua vida, e ainda assim a voz não lhe treme quando se diz orgulhosa de “fazer isto para ganhar a vida e poder pagar salários de muitas pessoas”. A sanidade mental e a calma que aparenta no olho do furacão à sua volta mantém-se, diz, ao saber que pode sempre recorrer a uma regra simples para se certificar de que continua na música pelas razões certas: “Se não quiser mesmo fazer algo nenhuma quantia me fará mudar de ideias – e já me propuseram muita coisa por valores obscenos; se gostar muito, estou disposta a fazê-lo gratuitamente.”

Agora que já percebeu que não precisa de tentar convencer do contrário cada pessoa que emite online opiniões pouco positivas sobre si e que diz ter passado tempo suficiente na obscuridade para “crescer e não ser uma criança de palco completamente doida”, aprendeu a reflectir na personagem Lorde aquilo que identifica como a marca recorrente nas suas canções e na sua postura: força. “Gosto de projectar e ser vista como sendo forte”, explica. Quem a viu sábado, no Rock in Rio, não duvida da inteira verdade deste propósito.