A ONU e a pedofilia na Igreja

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No passado dia 24 de Maio, o comité antitortura da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, condenou, mais uma vez, o Vaticano pela sua conduta alegadamente negligente no que respeita à repressão da pedofilia praticada por membros do clero católico. Já o fizera a 5 de Fevereiro último, recomendando então que a Igreja alterasse a sua posição contrária ao aborto e à contracepção.

Se é verdade que houve, por parte da hierarquia católica, quem encobrisse actos pedófilos praticados por clérigos e religiosos, não restam dúvidas quanto à doutrina cristã sobre este particular: "Quem escandalizar um destes pequeninos (...), melhor lhe fora que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar" (Mt 18, 6).

Trata-se de uma das mais severas condenações de todo o Evangelho, que parece contrariar a proverbial misericórdia de Cristo, nomeadamente quando perdoa a pecadora surpreendida em flagrante adultério. Esta aparente contradição tem uma fácil explicação: Jesus opta sempre pelos mais fracos e necessitados, como as crianças abortadas, os menores abusados e as mulheres seduzidas e abandonadas pelo cúmplice masculino.

Se este foi o comportamento de Cristo, esta foi também, por regra, a atitude da Igreja, que privilegia os mais pobres e se coloca do lado das vítimas. Como declarou o presidente da comissão antipedofilia da Santa Sé, o cardeal Sean O"Malley, que vendeu a sua residência episcopal para pagar indemnizações a menores abusados por padres pedófilos, "o direito da criança é prioritário. Não deve haver nenhuma tolerância para quem comete crimes, nem para quem é negligente" na sua denúncia e punição.

Uma novidade na doutrina e na praxe da Igreja? De modo nenhum. A mal-amada Inquisição, cujo recurso à tortura e desrespeito pela liberdade de pensamento e de expressão repugna à sensibilidade moderna, foi um eficaz instrumento de punição desses actos nefandos. O Santo Ofício não só perseguia a heterodoxia doutrinal como também os abusos de menores, sobretudo se praticados por clérigos.

Altos dignitários, como membros da corte, eclesiásticos e até juízes do Santo Ofício sofreram na pele o rigor da justiça inquisitorial. Mesmo que, amiúde, este tribunal fosse instrumentalizado pelo poder civil para finalidades políticas, a verdade é que, ao contrário dos Estados, punia, com severidade, os padres e religiosos pedófilos.   

Advoga-se, então, o regresso do ominoso Santo Ofício?! Deus nos livre de tamanho retrocesso que, como é óbvio, não tem cabimento no actual entendimento do que deve ser a acção eclesial. A Igreja não deve enveredar por esse tipo de medidas repressivas e atentatórias da liberdade humana que, a bem dizer, desdizem do seu espírito evangélico. Até porque, ao que parece, a ONU já assumiu essa função inquisitorial, em nome da sua duvidosa moralidade laica. 

Graças aos Papas Bento XVI e Francisco e seus predecessores, não restam dúvidas de que a Igreja católica declarou guerra à pedofilia. Por outro lado, a hierarquia católica comprometeu-se a apoiar os menores e a denunciar às autoridades civis qualquer membro do seu clero em que concorra uma fundada suspeita de pedofilia, reservando-se o poder de lhe aplicar também, cumulativamente, as sanções que entender oportunas. Ao longo destes últimos anos, cerca de meio milhar de padres católicos foram destituídos, por este motivo, pelas competentes autoridades eclesiais.

A 5 de Março último, o Papa Francisco afirmava que, nesta questão, "a Igreja é talvez a única instituição pública a ter reagido com transparência e responsabilidade". Será que a ONU, os seus Estados-membros e os restantes organismos internacionais perseguem, com o mesmo empenho, o aborto, a pedofilia, o abuso de menores, a prostituição e a pornografia infantil? "Ninguém fez tanto como a Igreja e, no entanto, nós somos os únicos atacados", concluía o Santo Padre. Dois mil anos depois, é como se Jesus de novo se erguesse e dissesse aos novos inquisidores: "Quem de vós estiver sem pecado, que atire a primeira pedra!" (Jo 8, 7).

Licenciado em Direito e doutorado em Filosofia. Vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família (CNAF)