Aqui não há qualquer alquimia

Foto
Rui Gaudêncio

Na nova exposição de João Penalva, um feixe de luz podia ser um feixe de luz. O artista português radicado em Londres continua a fazer da imaginação do espectador o seu principal cúmplice. Antes de contar tudo

João Penalva (Lisboa, 1949) atravessa a galeria e detém-se diante de uma série de fotografias. “Parecem-se com as do Yuji Kawasaki, o fotógrafo japonês que foi ao México para ser amante da Frida Kahlo e perdeu a sua máquina fotográfica”, discorre antes de rematar num sorriso aberto: “Mas não são.” É uma história de ficção esta que nos conta, como tantas outras que as suas obras sugerem na imaginação do espectador. Há, num primeiro momento, uma indeterminação naquilo que se vê, mas, ao mesmo tempo, o artista conta-nos tudo. Isto é, não nos esconde nada. “Isto são cactos do Hospital São José, onde pessoas escreveram os seus nomes. Mandim, Tomé, Martin y Ana, Tony...”

As fotografias faziam parte do arquivo de João Penalva e integram a sua nova individual, na Galeria Filomena Soares (até 31 de Setembro) depois de terem passado por um processo de transfiguração: “Fi-las em 2008. Nessa altura não me interessavam muito, não tinham qualidade, tinham sido feitas à pressa. Tentei então potenciá-las, comecei a experimentar. E recriei-as.” O efeito dessa recriação desconcerta e inebria o espectador, que facilmente se perde na interpretação. Serão fotos datadas do início do século XX? O que aconteceu àquele lugar? Parece destruído, queimado. E os nomes, o que dizem os nomes? Para o formular das interrogações contribui a “encenação”, o trabalho de João Penalva sobre as fotografias: eram digitais, foram impressas analogicamente. A sua dimensão documental apagou-se, foi esquecida. Tornaram-se ficções.

Noutra série, em telas de maior formato, vêem-se linhas, manchas, “desenhos”, padrões, superfícies sujas. São fotografias, feitas à escala real, de passeios de ruas que o artista percorre entre o ateliê e a sua casa, em Londres. Mas são mais do que isso. Há uma “pele”, uma textura que as afasta desse contexto, deslocando-as para outro universo. “Há uma relação com a pintura, por causa do suporte. As imagens foram impressas sobre linho, que habitualmente se encontra no reverso das telas. Pensa-se em pintura e depois pensa-se na história da pintura, nas linguagens da pintura ou nos trabalhos que realizei em pintura, nos anos 80 e 90”, diz o artista. João Penalva aproveita o momento para recuar uns passos e, já próximo da parede contrária, dirige, mais uma vez, o olhar para as telas. Faz comparações, aponta semelhanças: “Aquela lembra um trabalho da Boyle Family [família de artistas inglesa liderada por Mark Boyle]. Aquela podia ser uma pintura do Pierre Soulages. E há ali elementos que podíamos associar ao trabalho do Christopher Wool. Certamente que só quem conhece a história da pintura, fará essas ligações. Mas também é verdade que há outras ficções nestes trabalhos.” Refere-se aos títulos que indicam o código postal dos prédios: situam as imagens numa realidade objectiva (as ruas podem ser localizadas através dos mapas do Google), mas também permitem ao espectador imaginar o lugar e as pessoas que o habitam, a partir de marcas, indícios de histórias ou acontecimentos.

Contra a documentação

Mas surge uma questão que a revelação do material e dos processos já instigava: porquê contar tudo? Ao contrário, por exemplo, da experiência do cinema, em que a ficção sobrevive até ao fim do visionamento do filme, na obra de João Penalva o artifício nunca se esconde: “Gosto de contar tudo. Quero contar tudo. É muito importante desvendar todo o processo. É ele que dá origem às imagens, à ficção. Não há aqui qualquer alquimia. É importante para mim que as pessoas percebam como o trabalho foi feito para que percebam porque foi feito.” O fascínio do artista pela rua e pelos espaços urbanos é retomado nesta série e desvela um método. “Fiz estas imagens no meu trajecto habitual. Dei-me conta de que tinha muito material à minha volta que podia trabalhar e durante vários anos. Eram coisas que estavam à mão e esse foi um pouco o método. Não sei o que fazer com esta possibilidade. Também corro o risco de me aproximar de um trabalho de documentação e isso não me interessa, não quero.”

A facilidade com que João Penava encontra motivos e inspiração no quotidiano mais chão aproxima-o de outro artista: Ângelo de Sousa. Repare-se em Light Beam (Feixe de Luz), um curtíssimo filme que mostra um simples feixe de luz. Instalada no canto superior da sala escurecida da galeria, esta peça, inédita em Portugal, eleva o olhar dos espectadores na escuridão. “Gosto muito de poder usar todo este espaço e creio que o filme, pelas suas dimensões [numa projecção 3x4], fica muito bem aqui. Nas minhas exposições, não gosto de adaptar os filmes aos espaços. Se não o faço com a pintura ou com a fotografia, não vejo razões para o fazer com os filmes.” Em cima, o feixe de luz revela a presença de poeira durante quatro minutos e sem loop. Qual é a ficção aqui? Talvez a confusão que as pessoas fazem entre o projector e o feixe de luz, ou entre o feixe de luz filmado e um feixe de luz real. João Penalva recorda a propósito outras histórias: “As instalações dos meus filmes têm produzido outro tipo de ficções. Em Bristol, em 2005, criou-se uma sala de cinema para a apresentação de um dos meus trabalhos. O espaço nasceu como adereço daquela situação, para a exposição, mas as pessoas aproveitaram-no, quiseram ficar com ele e sobreviveu durante alguns anos como uma verdadeira sala de cinema. O mesmo ia acontecendo quando expus no Museu de Arte Contemporânea de Helsínquia, em 2003. Há um lado ficcional aqui, embora seja como consequência da produção de uma exposição. Teve efeitos no real e isso foi bonito.”