Lagarde: receitas dos recursos naturais ainda “são capturadas por uma minoria”

Directora-geral do FMI citou provérbio africano, na conferência organizada pelo fundo em Maputo: "Se queres ir longe, junta-te aos outros”.

Lagarde apoia BCE
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Os recursos naturais têm um peso preponderante nas exportações, mas “pouco contribuem para a criação de empregos”, afirmou Lagarde Chip Somodevilla/AFP

Cristine Lagarde tinha dito na quarta-feira que não haveria discursos paternalistas por parte do FMI. Esta quinta-feira de manhã, no discurso oficial da conferência “África em ascensão”, em Maputo, a directora-geral do FMI, após destacar o sucesso da região nos últimos anos, fez questão de sublinhar um problema crucial: “Temos de realistas e francos. Muitas das receitas [dos recursos naturais] são capturadas por uma minoria” da população.

Além disso, sublinhou, perante uma plateia com cerca de trezentas altas personalidades de países africanos, empresas privadas e ONG, os recursos naturais têm um peso preponderante nas exportações, mas “pouco contribuem para a criação de empregos”. Da mesma forma, as receitas que geram não têm sido aplicadas no desenvolvimento de infra-estruturas necessárias, como estradas, ligações energéticas e caminhos-de-ferro. Factos que ajudam à “erosão do tecido económico e à coesão social”, sustentou Lagarde.

Sobre Moçambique, deixou o aviso que “a descoberta recente de recursos naturais oferece uma oportunidade única para o país, mas pode também ser uma miragem, uma ilusão”. Falando para o Presidente da República de Moçambique, Armando Guebuza, que também proferiu um discurso de abertura, afirmou saber que o governante quer “um crescimento inclusivo e não apenas para alguns”. Depois, citou um provérbio africano: “Se queres andar depressa, vai sozinho. Se queres ir longe, junta-te aos outros”.

Para que a riqueza seja bem distribuída, há que fortalecer o quadro legal e a governação ligados à gestão dos recursos naturais, bem como a transparência, que gera um maior controlo e responsabilidade. Aqui, Lagarde destacou os bons exemplos do Uganda e Serra Leoa, que estão a implementar novas regras orçamentais em antecipação de um forte fluxo financeiro.

A carência de infra-estruturas foi suportada por números: apenas 16% das estradas que existem na África subsariana são pavimentadas, e a produção de electricidade per capita manteve-se quase estagnada nas últimas três décadas. Este tipo de investimentos, vincou Lagarde, são críticos para assegurar que o crescimento é sustentável e alargado, criando emprego e melhorando a integração regional. Funcionam, acrescentou, como um íman de investimento estrangeiro. Estima-se que o custo, face ao que é necessário fazer, seja da ordem dos 93 mil milhões de dólares por ano. Assim, afirmou Lagarde, “têm de ser cuidadosamente escolhidos, geridos e implementados, no âmbito de uma perspectiva orçamental de médio-longo prazo” e com o apoio de instituições internacionais.

África deverá receber este ano cerca de 80 mil milhões de dólares de investimento estrangeiro, um número recorde. Mas, neste momento, como disse Lagarde, “a pobreza e a desigualdade continuam elevadas”. No sector privado apenas uma em cada cinco pessoas tem emprego no sector formal e falta acesso a serviços financeiros. Destacou o papel das mulheres, essencial para o crescimento.

“O futuro está nas vossas mãos, mas os riscos surgem de outros sítios”, avisou Lagarde, destacando os principais: arrefecimento do crescimento das economias desenvolvidas e, principalmente, das economias emergentes, grandes parceiros comerciais dos países africanos (como a China); queda do preço de algumas commodities, como o petróleo; um maior aperto das condições financeiras; e potencial aumento da volatilidade dos mercados.

O futuro da região está ser construído neste momento, tendo Lagarde recorrido a um excerto do hino de Moçambique para ilustrar o que representa, do seu ponto de vista, a “África em ascensão”: “Pedra a pedra, construindo um novo dia”.

O jornalista viajou a convite do FMI 

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