Poeta e activista Maya Angelou morreu aos 86 anos

Os Estados Unidos despedem-se de “um tesouro nacional”, uma negra do sul segregado que lutou pelos direitos civis ao lado de Martin Luther King e Malcolm X.

Maya Angelou foi uma das autoras negras mais lidas dos Estados Unidos
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Maya Angelou foi uma das autoras negras mais lidas dos Estados Unidos Tim Sloan/AFP

A poeta e activista norte-americana Maya Angelou morreu esta quarta-feira. Tinha 86 anos e a sua agente, Helen Brann, explicou à comunicação social que a sua saúde se vinha deteriorando nos últimos tempos. Pouco depois, o filho, Guy B. Johnson, confirmou a notícia com uma declaração pública.

“A família está extremamente grata que a sua ascensão não tenha sido desmerecida por uma perda de acuidade ou compreensão. Viveu uma vida como professora, activista, artista e ser humano. A família está agradecida do tempo que teve com ela e sabemos que está a olhar para nós lá de cima com amor.”  

Angelou, que foi convidada a ler poemas em duas tomadas de posse presidenciais – em 1993, com Bill Clinton, e de novo em 2009, com Barack Obama –, foi uma das escritoras negras mais lidas nos Estados Unidos. Entre as suas obras mais conhecidas estão I Know Why the Caged Bird Sings, de 1969, e Carta à minha filha: um legado inspirador para todas as mulheres que amam, sofrem e lutam pela vida – dedicado à filha que nunca tive, de 2008 mas editada em Portugal em 2009 pela Estrela Polar.

Professora de Estudos Americanos na Wake Forest University a partir de 1982, Angelou “era um tesouro nacional, cuja vida e ensinamentos inspiraram milhões de pessoas pelo mundo”, escreveram em comunicado os responsáveis pela universidade.

Nascida em Saint Louis, no Missouri, em 1928, e baptizada como Marguerite Ann Johnson, Maya Angelou cresceu no sul segregado. Vítima de abusos sexuais aos oito anos, foi mãe aos 16, chegando a prostituir-se antes de conseguir começar uma carreira como cantora, actriz e, depois, escritora.

Com um pequeno papel na remontagem de 1952 da conhecida ópera Porgy e Bess, de George Gershwin, foi com o elenco do espectáculo que entre 1954 e 1955 viajou por cerca de vinte países europeus e africanos. No ano anterior, tinha conhecido e casado com o músico Tosh Angelous. Foi quando começou a ter aulas de dança e conheceu o bailarino e coreógrafo Alvin Ailey, com quem chegou a ter uma dupla a que chamavam Al e Rita.   

Já no arranque da década de 1960, em Nova Iorque, juntou-se à Harlem Writers Guild, conhecendo, pouco depois, Martin Luther King e acabando por ser tornar numa das organizadoras do “Cabaret for Freedom”, com o qual foram angariados fundos cruciais para a Southern Leadership Conference, a organização presidida por Luther King para a luta pelos direitos civis dos negros. Nesta mesma altura, juntou-se também aos movimentos pró-castristas e à luta pelo fim do apartheid na África do Sul, conhecendo o activista Vuzumi Make, com quem se mudou por um breve período para o Egipto, onde foi editora do jornal The Arab Observer. Mudou-se pouco depois para o Gana onde conheceu e se tornou próxima de Malcolm X, a cujo movimento se juntou no seu regresso aos Estados Unidos, em 1965.  

Autora tanto de obras dramatúrgicas como de prosa e poesia, Angelou foi a primeira memorialista negra de grande divulgação nos Estados Unidos com o primeiro tomo da sua autobiografia em sete volumes. Intitulado I Know Why the Caged Bird Sings, esse primeiro volume foi publicado em 1969 e conta a história da sua vida da infância ao momento em que foi mãe, escondendo a gravidez da família até ao oitavo mês para poder continuar a estudar.

“Se crescer é doloroso para a rapariga negra do sul, estar consciente do seu deslocamento é a ferrugem na lâmina que ameaça a garganta. É um insulto desnecessário”, escreveu.

On the Pulse of the Morning, o poema que leu em 1993 na tomada de posse de Bill Clinton, tornou-se num bestseller, celebrando a diversidade étnica nos Estados Unidos. Em 2011 Barack Obama entregou-lhe a maior distinção civil norte-americana, a Presidential Medal of Freedom.

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