Crítica

Masculino-Feminino

Uma estreia rara, de um dos maiores cineastas brasileiros vivos.

É um filme de 2008, que ainda por cima vai estrear em enorme fragilidade (apenas uma cópia), mas convinha prestar-lhe atenção: Júlio Bressane (n. 1946) é um dos maiores cineastas brasileiros vivos, figura mítica de um cinema underground (ou na terminologia local, “udigrudi”) que nos anos 60 e 70 frutificou no Brasil, porventura mais próximo de Warhol e de Nova Iorque do que da superfície da cultura brasileira, e que não deve ser confundido com o Cinema Novo, porque pese o forçoso parentesco a relação entre um e outro até foi algo conflituosa. Com O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema, entre outros, Bressane assinou, nessa época, alguns dos filmes mais corrosivos, mas também mais inventivos no seu escuro lirismo, do “udigrudi”.


Passado esse tempo “debaixo da terra”, mas sempre numa posição marginal (talvez a partir de certa altura até mais imposta do que desejada), a obra de Bressane evoluiu numa série de filmes altamente singulares, que interrogam o Brasil para além das mitologias mais evidentes (e falam, por exemplo, da persistência de um Brasil pré-Cabral, na procura de uma identidade prévia ao “achamento” e à colonização), e que constantemente cruzam e convocam outras disciplinas da arte e do pensamento, da pintura à filosofia (Bressane filmou, por exemplo, Os Dias de Nietzsche em Turim), das ciências à literatura.

Encontramos vários destes elementos em A Erva do Rato, filme misterioso e de sentido fugidio, construído a partir da amálgama de dois contos de Machado de Assis, e que muito peculiarmente lembra, não pela primeira vez na obra de Bressane (que muito o admira), certas preocupações de Manoel de Oliveira. E em particular um filme (O Estranho Caso de Angélica) que tem vários pontos de contacto com este, com especial destaque para a presença de uma câmara fotográfica como instrumento essencial ao relacionamento entre o par protagonista (e no filme não há mais ninguém se não aquele homem e aquela mulher, nem se sai da casa em que coabitam a não ser para uma heterodoxa incursão ensaística sobre a história do Rio de Janeiro). Numa espécie de mise en abyme, a história deles é contada a partir da relação entre palavra (os ditados) e imagem (as sessões fotográficas), entre a “metáfora” e a sua expressão concreta, sendo que aqui o ponto alto é o “rato” do título, que é tanto a figuração de um ruído ou de uma interferência como é, digamos, o fantasma de um terceiro elemento (um “rival”, portanto, que vai aonde o homem nunca vai, por exemplo à cama da mulher) naquela relação.

É um filme de um erotismo “arrefecido”, que nalguns momentos também parece “em fase” com outro cineasta europeu contemporâneo (Brisseau, obviamente), e onde, se não há o “sobrenatural” da Angélica de Oliveira, há a consagração de um domínio imaginário, o esbatimento das fronteiras entre o que é “vivido” e “sonhado”, entre o que é “desejado” e o que é “temido”, numa atmosfera que por vezes parece a de um filme de terror (embora sem “terror”), alimentada pelos mais contraditórios medos e pulsões. Filme “estranho” em todos os sentidos da palavra, mergulhado numa cadeia alusiva (ainda as referências e convocatórias de outros universos, da pintura à mitologia antiga) em diálogo directo com a profunda sensualidade da sua matéria (aqueles espaços, aqueles corpos, aquelas vozes), A Erva do Rato é uma obra singularíssima, fascinante nos mistérios em que se cerra (em que se encerra). É de tentar não perder.