Crítica

As pescadeiras de Vila Chã

Depois de Balaou e de É na Terra, Não é na Lua, Gonçalo Tocha continua a filmar o mar. A Mãe e o Mar foi um dos filmes produzidos no âmbito do projecto Estaleiro, de Vila do Conde, e foi justamente pelo seu currículo “marinho” que Tocha foi convocado para filmar, na comunidade piscatória de Vila Chã (nas imediações de Vila do Conde), o rasto das “pescadeiras”, as mulheres-arrais de Vila Chã, que outrora foram muitas e, crê-se, representaram uma tradição única em todo o mundo. Se o filme começa como uma investigação (planos numa biblioteca, à procura de registos escritos da história das “pescadeiras”), o seu corpo tem muito mais a ver com uma recolha e com o domínio da história oral, contraposta à ausência de uma verdadeira história escrita das mulheres-arrais de Vila Chã. Este lado “etnográfico” embebe o filme, à medida que pescadoras e pescadores partilham memórias do passado e impressões do presente, e confere-lhe um valor específico e inamovível, tanto mais que essa história oral surge como o resultado de uma experiência de “imersão” naquela comunidade, sendo o filme também, de algum modo, o relato dessa experiência (até porque Tocha não elide o seu lugar nem a sua presença como um elemento “estranho” mas catalisador, neste caso, da memória). E portanto, se o filme se volta para o passado, é o presente que não cessa de vir à superfície, o estado depauperado da prática piscatória, rimando a destruição do “sector primário” português nas últimas décadas, para o que Tocha encontra uma imagem bastante poderosa: todos os barcos de pesca que hoje existem em Vila Chã (nove, quando antes foram centenas) reunidos dentro do mesmo, e apertado, plano.


Mas esse predomínio do depoimento é igualmente o maior limite do filme, que vive pouco para além da mediação trazida pelos discursos individuais, e que por vezes acentua, nesses discursos, uma espécie de ingenuidade nem sempre agradável - caso do monólogo final do pescador, frente ao mar, que tem algo de embaraçoso, não pelo que o homem diz, mas por se ter visto na posição e na obrigação de o dizer (e nem por o filme evocar constantemente o seu lado “construído”, e documentar também o modo da sua factura, isto se resolve bem). Nâo impede que seja um retrato válido de lugares concretos e pessoas concretas, mas deixa a sensação de ser um filme um pouco perdido (ou não totalmente encontrado) entre a modéstia pretendida como “princípio” e a modéstia, involuntária, do seu resultado.