Revelada mutação genética de cães albinos

Gene identificado na raça Dobermann é semelhante a gene envolvido numa forma de albinismo nos seres humano.

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Três Dobermann albinos, com o nariz e a boca cor-de-rosa DR

Até 1976, os Dobermann existiam apenas em quatro cores, designadas por: "negro", "castanho", "azul" (diluição do negro) e “isabella” (diluição do castanho). Nesta altura, ocorreu uma mutação genética e, do cruzamento de dois cães de coloração normal, nasceu o primeiro melhor amigo do homem desta raça que era albino. Mais tarde, o seu acasalamento com outros cães que tinham a mesma mutação levou à propagação de Dobermann de pêlo branco e olhos claros. Agora, foi identificada a mutação genética que causa o albinismo nestes cães de guarda e de companhia.

A descoberta, publicada na revista PLOS ONE, envolveu experiências com Dobermann albinos e Dobermann de cores normais, revelando que o gene mutado (SLC45A2) é semelhante a um que está envolvido numa forma de albinismo nos seres humanos. Um cão, ou uma pessoa, pode ser portadora da mutação genética sem que o albinismo se manifeste, mas pode transmiti-la à sua descendência. Caso os dois progenitores transmitam aos filhos a cópia do gene mutado, então eles serão albinos.

“Descobrimos uma mutação genética que resulta na ausência de uma proteína que é necessária para que as células sejam pigmentadas”, disse Paige Winkler, estudante da Universidade Estadual do Michigan (EUA), e que coordenou o estudo com Joshua Bartoe. “Nos humanos, alguns defeitos neste mesmo gene causam o albinismo oculocutâneo [ausência total ou parcial dos pigmentos da pele, do cabelo e dos olhos]”, acrescenta, em comunicado.

Apesar de existirem quatro cores possíveis para os Dobermann (sem contar com a branca), a sua aceitação é variável: nos Estados Unidos e no Canadá, a totalidade das cores é aceite, enquanto na Europa apenas são admitidas duas – o negro e o castanho. “Muitos exemplares de cor azul e ‘isabella’ apareciam com doenças de pele e por isso mesmo foram erradicados dos programas de criação da Europa”, explica ao PÚBLICO Fernando Magalhães, presidente do conselho directivo da Associação Dobermann de Portugal, fundada em 1984.

Quanto ao albinismo nos Dobermann, ele é inaceitável a nível mundial. Assim, uma vez que os Dobermann albinos não cumprem os padrões de classificação da raça, as conclusões deste estudo são consideradas bastante importantes.

“Essa cor não é reconhecida. O Dobermann é um cão de origem alemã e, portanto, os ‘standards’ da raça são detidos pela Alemanha. E o albinismo, em todas as raças, não é uma característica desejável devido aos problemas que acarreta”, refere Fernando Magalhães, acrescentando que também há cães albinos nas raças Boxer ou dogues alemães.

Esta descoberta pode revelar-se assim importante para os criadores de cães: conhecendo a genética dos seus cães, poderão evitar o nascimento de Dobermann albinos. “Pode ter interesse para que os próprios criadores tenham um certo cuidado nos exemplares que utilizam para reprodução. O criador pode ser chamado à atenção para evitar utilizar determinado um macho ou uma determinada fêmea que poderá trazer este acrescento de problemas no futuro”, afirma Fernando Magalhães.

Vários problemas de saúde
Algumas características do albinismo nos Dobermann passam por pêlo de cor muita clara, íris pálidas e nariz e a boca cor-de-rosa. “Estas características são muito semelhantes às características manifestadas nos humanos com este problema [albinismo oculocutâneo], que origina pele cabelo claros, bem como a descoloração dos olhos e perturbações da visão”, refere Paige Winkler.

Dada a sensibilidade da pele à luz solar, tanto nos humanos como nos cães, o risco de cancros e de outras lesões na pele é maior. “O albinismo tem a ver com falhas biológicas. A cor da pele, dos olhos e do pêlo depende da presença de um pigmento chamado melanina. Portanto, a sua principal função é a pigmentação e a protecção contra a radiação solar. A falha da melanina é sempre um problema grave que pode vir a causar problemas graves na pele”, diz Fernando Magalhães, que teve o seu primeiro Dobermann em 1980 e, quatro anos mais tarde, tornou-se criador desta raça de cães.

Até agora, permanecia a questão de saber que forma os tumores afectavam os cães de cor normal e os cães albinos. “Já sabíamos que os Dobermann costumavam desenvolver estes tipos de tumores, à semelhança dos humanos, mas perguntávamo-nos qual era de facto o aumento da prevalência destes tumores nos Dobermann ‘brancos’ em relação aos Dobermann de pêlo normal”, diz por sua vez Joshua Bartoe, também segundo o comunicado. 

Nos 40 cães estudados, metade albinos e a outra metade com pêlo de cor normal, a equipa de cientistas descobriu que mais de metade dos cães albinos (12 animais) tinha pelo menos um tumor, enquanto apenas um dos cães de cor normal apresentava um tumor. “Agora que identificámos a mutação, podemos olhar para a composição genética desses cães e determinar se eles podem ser portadores [dela]”, diz Joshua Bartoe.

Também a falta de visão e a surdez são patologias associadas ao albinismo e isso pode traduzir-se em problemas comportamentais. “Um cão que ouça mal e veja mal pode, por medo, ter tendência a morder, para se defender e defender o seu território”, refere Fernando Magalhães. “Uma coisa é certa: o albinismo não é desejado em nenhuma raça. E, por isso, também não é desejado num Dobermann.”

Texto editado por Teresa Firmino