Opinião

A abstenção e a oposição

Nem PS, nem Bloco, nem sequer a CDU foram capazes de ir buscar mais um voto – um voto, sequer – aos partidos do Governo.

Lamentar a abstenção é coisa que fica sempre bem, e praticamente não houve político na noite de domingo que não pegasse no microfone para lacrimejar acerca do novo recorde da abstenção em Portugal, acima dos 66%. Dois em cada três portugueses não se deram ao trabalho de ir votar. Trágico, não? Peço desculpa por estar do contra: não, não é trágico. Ou, pelo menos, não tão trágico quanto muito boa gente nos quer fazer acreditar.

Não votar pode querer dizer: “Estou-me nas tintas.” Pode querer dizer: “Nenhum partido merece o meu voto.” Pode querer dizer: “Eles são todos iguais.” Pode querer dizer: “Vão para o raio que vos parta.” Pode querer dizer muita coisa. Mas, em qualquer dos casos, quer dizer sempre isto: “A política é uma treta, mas não uma treta suficientemente grande para pôr em causa aquilo que de mais importante tenho na vida.” Não votar demonstra um certo conformismo, com certeza, e podemos lamentar a falta de participação cívica – mas significa invariavelmente que vivemos numa sociedade pacificada, em que nada de realmente fundamental se joga em cada eleição. Não ir votar é um gesto típico de uma democracia consolidada, em que nos podemos dar ao luxo de deixar nas mãos dos outros a decisão do voto, porque simplesmente temos a certeza de que o mais importante não está em causa.

Quando não tínhamos essa certeza, quando sentíamos que o nosso voto era essencial para o nosso futuro, quase ninguém se esquecia de votar. As primeiras eleições realizadas em Portugal após o 25 de Abril, em 1975, para a formação da Assembleia Constituinte, tiveram uma participação eleitoral de 91,7%. Até 1980, nenhuma eleição baixou dos 85%. Foi à medida que o regime se foi normalizando que a participação foi decaindo.

Eu não estou obviamente a dizer que não votar é sintoma de uma espectacular saúde democrática. É claro que é importante as pessoas não alienarem o seu voto. Mas convém ter a coragem para interpretar o que significa alguém ficar em casa ou ir para a praia, em vez de se dirigir a uma assembleia para votar. E o que tal significa, de facto, não se encaixa no discurso apocalíptico da oposição, nem no retrato do Portugal de 2014 como um território de gente devastada, nem sequer no argumentário sobre a “ilegitimidade” do actual Governo.

Que o actual Governo caiu em desgraça não parece haver grandes dúvidas. Em termos absolutos, a votação de PSD e CDS-PP despencou para um terço entre as legislativas de 2011 e as europeias de domingo. Os dois partidos tiveram acima de 2,8 milhões de votos em 2011, enquanto agora ficaram pouco acima dos 900 mil. É uma hecatombe. Só que o PS de 2011 (sim, o PS de José Sócrates) teve mais de 1,5 milhões de votos, enquanto o PS de Francisco Assis e António José Seguro teve pouco mais de um milhão, ou seja, a capacidade de mobilização da oposição para votar contra o Governo foi uma absoluta desgraça. Até um dos principais vencedores da noite – a CDU – teve menos votos em 2014 do que em 2011.

Claro que eu sei que a abstenção das europeias esteve 25 pontos percentuais acima da abstenção nas últimas legislativas. Mas isso não modifica o meu ponto: quando estamos no meio de uma crise sem precedentes e a coligação perdeu dois milhões de eleitores, nem PS, nem Bloco, nem sequer a CDU foram capazes de ir buscar mais um voto – um voto, sequer – aos partidos do Governo. É esta paralisia – e não a da abstenção – que nos deveria preocupar.