Jornalistas de bancada

Salvo raras mas muito honrosas excepções, quem está a formar os aspirantes a jornalistas são jornalistas de bancada. Estagnados, no seu mundo, a ver as notícias passar

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Catherine Benson/Reuters

Já ouvi muita coisa ao longo do meu percurso académico. Boa e má, genial e execrável. Já pensaram que o problema do ensino do jornalismo em Portugal é, algumas vezes, profundamente mais complexo do que afirmar que há jornalistas a mais, que a profissão não tem futuro?

Ao longo da licenciatura e do mestrado já ouvi e descobri muitas coisas interessantes, ditas por pessoas que nunca foram jornalistas, que nunca possuíram uma carteira profissional ou, se o tiveram, foi por pouco tempo. Tempo a menos para conseguirem dotar alunos de conhecimentos realmente importantes e imprescindíveis para lhes permitir não passar por incompetentes nas redacções quando chegam aos estágios, os que chegam.

Descobri que devia estar em Londres e que se não tenho condições para estudar lá é porque sou preguiçoso e não quero fazer nada na vida. Descobri que interessa mais conceptualizar termos mortos e inexistentes, para lá de um mundo cor-de-rosa pseudointelectual, que raramente entram — nem teriam fundamentos para isso — no trabalho rotineiro, ou não, de uma redacção, do que fazer uma mísera visita a um local de trabalho com uma paupérrima e superficial explicação do tipo: isto funciona assim. Porquê? Como?

Chegámos ao ponto em que os alunos pedem isto… paupérrima e superficial explicação da realidade! Se as expectativas são estas, os resultados não podem apresentar grandes índices de qualidade e excelência. E já me esquecia… também descobri que fazer um estágio é tempo perdido, o caminho é uma tese. Mas com fundamento? Não, porque é esse o caminho para dar prestígio às instituições que “vivem” disso.

Salvo raras mas muito honrosas excepções, quem está a formar os aspirantes a jornalistas são jornalistas de bancada. Estagnados, no seu mundo, a ver as notícias passar, sem noção do trabalho que é feito mas com teorias — que podem ou não fazer sentido — dos porquês, quando tantas vezes por conhecimento de causa se sabe que não é bem assim. Que não é nada assim.

Acho que é importante referir que sou um apaixonado pela teoria, tanto como sou pela prática jornalística. Mas falo de teoria e investigação com sentido, com contexto. Não falo de investigação e teoria oca, não para colmatar as falhas intensas de um ensino parado, que compra bilhete para o acontecimento mediático mas fica lá, na bancada, a contemplar o mundo a passar através de imagens, textos e sons.

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