Espanha: líder da oposição socialista demite-se

Resultados europeus têm reflexo interno: liderança socialista assume derrota. Votação no novo partido Podemos foi outra grande novidade.

Rubalcaba ao anunciar a demissão em Madrid
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Rubalcaba ao anunciar a demissão em Madrid Andrea Comas/Reuters

Em Espanha, a derrota eleitoral nas europeias do maior partido da oposição teve consequências rápidas: Alfredo Pérez Rubalcaba demitiu-se e convocou um congresso extraordinário do PSOE para 19 e 20 de Julho.

Os socialistas espanhóis tinham no seu calendário a realização de eleições primárias em Novembro – daí sairia a liderança que levaria o partido até às próximas legislativas. O pior resultado da história do PSOE, com 23% dos votos, muda o calendário: não só a renovação vai começar já, como Rubalcaba não fará, em nenhum caso, parte do futuro imediato do partido.

“O congresso vai servir para eleger uma nova direcção”, disse o próprio na conferência de imprensa que se seguiu ao encontro do comité federal do PSOE, em Madrid. “O que faço é assumir a responsabilidade política pelos maus resultados, esta decisão foi totalmente minha.” A nova direcção sairá do congresso, explicou ainda; as primárias para escolher o candidato às eleições gerais de 2015 vão manter-se. “Naturalmente que não”, respondeu Rubalcaba, quando os jornalistas lhe perguntaram se poderia disputar à liderança.

O que saltou à vista da maioria dos analistas depois da votação de domingo foi a confirmação do anunciado fim do bipartidarismo, com o Partido Popular e o PSOE juntos a não irem além dos 50%, perdendo mais de cinco milhões de votos e 30% em relação às europeias de 2009.

Após anos de crise económica e institucional sem precedentes, todas as sondagens e análises apontavam neste sentido. Muitos espanhóis olham para os grandes partidos e vêem corrupção, cortes sociais cegos e defesa da banca. Não se sentem representados e isso não começou nas europeias de domingo. Estas eleições acontecem quase seis anos depois da falência do Lehman Brothers, em 2008, “quatro desde o anúncio do primeiro grande pacote de cortes por parte de [Rodriguez] Zapatero”, “três desde a explosão do 15M”, enumera o sociólogo Josep Maria Antentas num artigo no diário espanhol Público.

Inquéritos e académicos enganaram-se, porém, nas apostas sobre quem mais beneficiaria com esta queda dos partidos que alternam no poder desde 1977. Os candidatos mais óbvios eram os que estão há mais tempo na corrida – a UPyD (União Progresso e Democracia), a primeira força de centro-esquerda que tentou desafiar a hegemonia do PP e do PSOE, e elegeu quatro deputados; e a Esquerda Plural, coligação criada em redor da Esquerda Unida, que se afirma como terceira força e elege seis deputados.

A grande novidade foi mesmo o partido Podemos, nascido há três meses, que elege cinco deputados e reúne 1,2 milhões de votos (7,94%). Os analistas anteciparam que reuniriam parte do chamado "voto 15-M", saído do gigantesco movimento social de protesto de 2011. O líder, o professor de Ciência Política Pablo Iglesias, recusou sempre querer “apoderar-se” desse movimento e teve como grande bandeira eleitoral o combate ao bipartidarismo, contra o que chama “a casta”.

Mas os conservadores do PP venceram estas eleições europeias, com 16 deputados (mais dois do que o PSOE) – e foi um dos poucos partidos no poder a consegui-lo. O líder socialista espanhol descreveu os resultados como “maus, sem paliativos”, apesar da subida geral do voto da esquerda em Espanha. “Não recuperámos a confiança dos cidadãos”, disse Rubalcaba. “Há pessoas que se lembram que isto começou quando nós estávamos no Governo. É preciso mudar as formas de fazer política.”