Braga quer pôr ciclovias à porta de casa de 100 mil pessoas

Câmara prepara uma rede ciclável no concelho com 76 quilómetros para responder à quadruplicação do número de utilizadores em três anos.

Actualmente existem apenas 7,9 quilómetros, no corredor do rio Este e na ciclovia da encosta de Lamaçães
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Actualmente existem apenas 7,9 quilómetros, no corredor do rio Este e na ciclovia da encosta de Lamaçães Pedro Cunha

Ainda não saiu do papel, mas é uma ideia que pode revolucionar uma cidade em que o automóvel tem sido dono e senhor do espaço público. A câmara de Braga está a ultimar um plano de alargamento das ciclovias no concelho que tem como objectivo criar uma rede utilizável por bicicletas com 76 quilómetros de extensão. Caso o plano seja concretizado, haverá uma ciclovia praticamente à porta de casa de 100 mil bracarenses, um pouco mais de metade da população do concelho.

O projecto da Câmara de Braga, a que o PÚBLICO teve acesso, apresenta um mapa em que, no máximo, será preciso percorrer 300 metros entre a casa de cada um dos habitantes servidos pela ciclovia e um troço da rede. “É a distância que se estima que um ciclista esteja disposto a percorrer a pé e que corresponde a cerca de cinco minutos”, explica o vereador do Urbanismo, Miguel Bandeira.

No plano, está previsto um grande corredor ciclável em torno de Braga, entre o sopé do Bom Jesus e a zona industrial de Ferreiros. Deste modo, será possível cobrir o eixo central da cidade – entre a estação ferroviária e o campus da Universidade do Minho – e incluir o centro histórico e as principais zonas habitacionais. A proposta prevê também uma ligação para fora da zona urbana, em direcção a Norte, ligando ao vale do Cávado, para o qual a Comunidade Intermunicipal prepara também a criação de um corredor verde.

Caso o projecto seja concretizado, Braga multiplicaria praticamente por dez o número de quilómetros da rede. Actualmente existem 7,9 quilómetros, no corredor do rio Este e ciclovia da encosta de Lamaçães, mas, mesmo nestes troços, 60% do percurso terá que ser requalificado por não apresentar as necessárias condições de segurança.

O vereador do Urbanismo da autarquia bracarense admite que o projecto “não é fácil” de concretizar numa cidade que “até há bem pouco tempo não tinha uma faixa exclusiva de transportes públicos e grandes dificuldades de espaços cicláveis”. Mas essa é uma das suas prioridades para os próximos anos, ainda que Miguel Bandeira reconheça que é preciso “um salto em termos de mentalidade” para promover o uso da bicicleta na cidade, garantindo um convívio seguro com os automobilistas.

O projecto da Câmara de Braga está a ser ultimado para ser candidatado a fundos comunitários assim que sejam conhecidas as regras do próximo quadro de apoio. A necessidade do investimento tornou-se evidente face à procura crescente pela bicicleta. Em apenas três anos, o número de utilizadores regulares aumentou quatro vezes – em 2011, havia 196 ciclistas, agora são 724 –, sinal de que começaram a perceber o potencial da cidade neste domínio. Braga é relativamente plana, com a maioria das inclinações inferior a 3%.

A intenção da autarquia é elogiada por Mário Meireles do blogue Braga Ciclável – que, no final do ano passado, recebeu o Prémio Nacional da Mobilidade em Bicicleta: “Não só é muito positivo que a câmara esteja a pensar nisto, como é perfeitamente possível atingir esses objectivos”, defende. A ideia de uma cidade plana e perfeitamente adaptada ao uso da bicicleta tem sido defendida neste blogue nos últimos dois anos. Agora são os políticos “que já se aperceberam deste potencial”.

Meireles dá exemplos das cidades espanholas de Sevilha e San Sebastián para dizer que acredita que a criação da nova rede ciclável na cidade pode ser o primeiro passo para uma “explosão” do uso da bicicleta em Braga: “O que percebemos doutras experiências europeias é que o aumento da utilização da bicicleta começa sempre por ser ligeiro, mas quando há uma aposta numa rede segura, directa e cómoda, acontece um boom”.

Estacionamento preocupa

Com o aumento do número de utilizadores de bicicletas, há cada vez mais velocípedes estacionados no centro de Braga. No ano passado, a câmara instalou suportes de aparcamento em sete locais da cidade, mas o número não é suficiente para as pretensões dos utilizadores, e os que existem estão mal sinalizados, acabando por ser utilizados por motos sem grande controlo policial.

A situação motivou queixas da Braga Ciclável numa carta enviada, no final do mês passado, ao vereador do Trânsito, Firmino Marques, e que foi tornada pública no blogue do movimento. Dos sete locais de estacionamento criados, só um – junto ao GNRation – tem sinalização respectiva, indicando que é um local de uso exclusivo para velocípedes.

A Câmara de Braga garantiu, entretanto, à associação que se prepara para regularizar a situação e instalar mais alguns espaços de estacionamento – originalmente estavam previstos em mais de 30 localizações. “Esperamos que agora o problema se resolva”, comenta Mário Meireles.