Quatro ideias loucas – ou nem por isso – para reabilitar a escarpa das Fontainhas no Porto

Arquitectos e alunos de Arquitectura aceitaram o desafio do Laboratório Social e imaginaram formas de valorizar um espaço a que a cidade voltou as costas.

António Fontes desenhou uma plataforma-praça apoiada na ponte do Infante
António Fontes desenhou uma plataforma-praça apoiada na ponte do Infante DR
Nuno Grande transportou as formas das carruagens de comboios para casas e equipamentos de acesso entre cotas
Nuno Grande transportou as formas das carruagens de comboios para casas e equipamentos de acesso entre cotas DR
André Fontes gostaria de ver retomada a relação da cidade com o rio, sob a marginal
André Fontes gostaria de ver retomada a relação da cidade com o rio, sob a marginal DR
Fotogaleria

Dá-se o acaso de ser uma zona entre duas pontes. Entre uma que ninguém quer, a do Infante, e outra que ninguém usa, a D. Maria Pia. A escarpa das Fontainhas é uma área que o Porto visita no São João, e abandona no resto do ano. Desafiados pelo recém-criado Laboratório da Habitação Básica, quatro arquitectos formaram equipas com alunos de Arquitectura e de Ciências Sociais e tentaram perceber de que forma se pode coser um espaço cheio de cortes provocados por duas linhas férreas, um relevo difícil de vencer e, acima de tudo, o esquecimento.

São propostas para pôr a cidade a reflectir sobre as Fontainhas. Sem alho-porro nem a euforia da festa – mas ainda assim com espaço para a festa. Entre as múltiplas formas de olhar para as Fontainhas saídas de um seminário organizado em Abril pelo Laboratório da Habitação Básica, o desafio lançado pelo arquitecto António Fontes, de Braga, é talvez a mais provocadora. Porque acrescenta a uma estrutura feita para o mero atravessamento, a ponte do Infante, uma outra estrutura, mais leve, pensada para o convívio: para a festa, o desporto, o cinema ou o teatro ao ar livre. Para um mergulho no rio, cujo espelho de água se torna visitável por via de elevadores.

A plataforma sob a ponte de Adão da Fonseca é mais do que um desenho, uma reflexão. Num primeiro momento, professor e estudantes chegaram a pensar que, sob aquele arco, poderia ser construída a sede de um imaginário município que unisse Porto e Gaia. Essa primeira utopia caiu, mas a ideia de ligação permanece, no tipo de convivialidade permitida pelas actividades para ali propostas e que, nalguns casos, aproveitam a estrutura para criar anfiteatros. “Sería um ponto de encontro entre as pessoas de Porto e de Gaia”, antes de ser, como seria normal numa obra deste tipo, um ponto de visita quase obrigatório de turistas.

Se Nova Iorque tem a sua High Line, que transformou uma desactivada linha férrea em viaduto num passeio-jardim suspenso, o Porto teria a sua praça-ponte, feito numa ponte recente, em uso, mas que tem sido notícia pelo facto de nem a Câmara de Gaia nem a do Porto quererem ficar com a responsabilidade pela sua manutenção. “Esta nova estrutura tem uma posição privilegiada, que permite ver as pontes de ferro, de D. Luís e de Maria Pia, de uma forma completa”, nota o arquitecto frisando que se trata de uma “especulação metódica”. Ainda assim “exequível”. E "não excessivamente cara", tendo em conta o seu potencial, argumenta, considerando que estes usos múltiplos podiam ajudar a custear as despesas com a travessia de betão.

A olhar para o comboio


A nascente da ponte que ninguém quer, outros estudantes, apoiados por Nuno Grande, olharam para a ponte que ninguém usa. E de tanto verem o comboio passar – como os miúdos de Manuel de Oliveira, em Aniki-Bóbó, de 1942 – acharam que aquela modularidade da carruagem podia ser replicável, na forma longa e estreita, a estruturas de habitação e serviços, a canais de ligação vertical (em elevador), ou diagonal (em escadaria) que ajudassem a fazer aquilo que um comboio faz: ligar um ponto a outro. A cota alta à baixa. Coisa importante, considera também Nuno Grande, que propõe a criação de um apeadeiro na linha Campanhã-São Bento que, neste momento, não serve quem mora no casario que sobreviveu à saída da população, ao entaipamento e à ruína.

“A Escarpa das Fontainhas possui valores patrimoniais relevantes, que devem ser reaproveitados e integrados nos circuitos de passeio lúdico e turístico do Porto, desde que os mesmos beneficiem, não apenas os visitantes, mas também, e sobretudo, os moradores locais. Entre esses elementos, destacam-se a inactiva Ponte Maria Pia – desenhada pelo gabinete do famigerado engenheiro francês Gustave Eiffel –, assim como as plataformas e os túneis associados à notável intervenção da engenharia ferroviária portuguesa, no Porto dos finais do século XIX”, descreve o arquitecto que, há um ano, viu um colega de profissão, Pedro Bandeira, propor que a ponte de ferro fosse transferida – qual monumento sem uso numa segunda vida de pura contemplação – para perto do seu atelier na Boavista.

Nuno Grande quer a ponte onde ela está, e o grupo que orientou no seminário imaginou um miradouro, a meia encosta, para contemplar dali, num ângulo contra-picado, o arco desenhado por Teófilo Seyrig, o engenheiro que haveria, já separado de Eiffel, de ganhar o concurso para a Ponte Luís I. No túnel desactivado que ligava o tabuleiro ferroviário a Campanhã, o arquitecto propõe a abertura de um museu, com carruagens de várias épocas, fixando essa relação ainda marcante entre o comboio e aquela encosta. No outro túnel sem uso mais abaixo, chamou Passeio das Quatro Pontes a uma pista pedonal e ciclável – ideia defendida por muita gente, nota – que ligaria esta zona oriental à da Alfândega.

No fundo, completa Nuno Grande, este túnel ligaria “este Porto autêntico, com uma ponte de verdade, uma escarpa real, à cidade de plástico do World of Discoveries”, diz, numa referência ao parque temático sobre os Descobrimentos do empresário Mário Ferreira.

O receio da tematização, da transformação da cidade, cuja autenticidade levou à classificação do Centro Histórico pela UNESCO, em algo a fingir, é partilhada por Fernando Matos Rodrigues, um dos Fundadores do LabSocial, que elogia as propostas que viu nascer no seminário por respeitarem esse ponto de partida: o de procurarem revitalizar sem simplesmente imitar, o de procurarem reabilitar sem retirar da escapa as pessoas que lá vivem.

Essa foi a perspectiva com que João Carreira, o mais velho dos coordenadores de grupos deste workshop, pensou a área da escarpa onde se localiza o Bairro do Rio Bom. O arquitecto que diz ter começado a fazer os seus primeiros projectos, ainda estudante, a partir desta “paisagem excepcional”, confessa, aos 58 anos, que só agora regressou a esta zona da cidade. Passou muito tempo, mas pouco mudou. E, na verdade, no arranque de Aniki-Bóbó, o casario já parece velho, como parece agora a quem passeie por lá. O que não o impede de propor um programa de pequenas obras, intervenções pouco dispendiosas capazes de corrigir os erros da auto-construção em espaço tão exíguio: alargar um quarto, instalar infra-estruturas, aproveitar ruínas para serviços de apoio, como uma lavandaria. 

Este é um problema da cidade

“Tenho quase 60 anos. E, como arquitecto, tenho a obrigação de dar sentido a uma paisagem que sempre existiu em vez de tentar ganhar dinheiro a pensar para ali um condomínio de luxo”, atira este arquitecto, que reservou espaços para hortas e imagina algumas das ruínas como palcos para bailaricos de São João, o tal momento do ano em que o Porto se lembra desta zona. A sua degradação “é um problema da cidade. Comecei a andar por ali com o arquitecto Correia Fernandes e, pela sensibilidade que ele tem, espero que, como vereador do Urbanismo, ele possa ajudar a encontrar soluções”, diz João Carreira.

O PÚBLICO tentou, sem sucesso, ouvir Correia Fernandes e Manuel Pizarro, que tutela a Habitação, sobre as propostas trabalhadas por estes profissionais e sobre a estratégia da câmara para esta parte da cidade. Na campanha eleitoral, Rui Moreira mostrou-se favorável a um esforço de reabilitação.

Para além da plataforma sob a Ponte do Infante, António Fontes procurou acrescentar uma espécie de casas-ninho às paredes da escarpa. Já o irmão, André Fontes, olhou para os desníveis entre as cotas alta e baixa, procurou forma de os suavizar, de ligar caminhos agora desligados, colocando pelo meio equipamentos capazes de servir a população local – como um teatro popular, um centro de formação – e outros de interesse mais regional. Entre estes imaginou, por exemplo, um anfiteatro ao nível da água, sob a Avenida Gustavo Eiffel, a marginal ribeirinha, aproveitando umas colunatas que hoje suportam a estrada. No rio, imaginou um caminho flutuante, complementar a outro sobre as pedras. Pôs gente a usar uma parte da cidade inacessível. Onde hoje há uma escadaria que acaba na água, e não leva a lado nenhum.