Palmarés de Cannes 2014: quase uma maravilha

Nuri Bilge Ceylan andava há anos a rondar a Palma de Ouro, chegou a ela. Mas o coração deste palmarés está no ex-aequo Godard/Dolan, associação poética ou bárbara, segundo os pontos de vista. E ficaremos sempre com Le Meraviglie, filme que pôs o maravilhoso nestes prémios.

<i>Winter Sleep</i> valeu ao turco Nuri Bylge Ceylan a Palma de Ouro de Cannes
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Winter Sleep valeu ao turco Nuri Bylge Ceylan a Palma de Ouro de Cannes DR
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Nuri Bylge Ceylan com o prémio principal de Cannes 2014 Valery Hache/AFP
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Xavier Dolan abraça Jane Campion, a presidente do júri Valery Hache/AFP
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Alice Rohrwacher com Sophia Loren Valery Hache/AFP

Foi a Palma do Coração da imprensa de Cannes 2014, foi o Prémio do Júri por quem decide em termos definitivos: Mommy, de Xavier Dolan. O jovem realizador do Quebec, perdido pela emoção, pelo reconhecimento e pelo amor que sentiu pelo seu filme, foi abraçado pela presidente do júri Jane Campion, depois de ter soluçado que O Piano foi decisivo para ele - assim se confirmando o que se vinha escrevendo na imprensa, que Mommy teria a ver com a metamorfose romântica no feminino que está na obra da realizadora da Nova Zelândia e que haveria reconhecimento a ser feito publicamente, ou seja, com um prémio.

E é aqui, no Prix du Jury, que está, fundamentalmente, o coração do palmarés 2014, no ex-aequo cheio de ressonâncias e golpes de teatro technicolor que o júri de Campion construiu: Xavier Dolan e o Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard, juntos.

É uma história A star is born: um, 25 anos, que anuncia que chega, que diz aos sete ventos que quer amar e ser amado, que o cinema faz ganhar e vinga, e outro, 83 anos, que nem apareceu, que mandou vídeo aos programadores/directores do festival, agradecendo-lhes, mas não, já não faz parte deste mundo, já não está aqui, está ailleurs, onde não se espera que esteja – com uma voz que constrói o seu além, um murmúrio de solidão que podia estar num horror movie do cinema clássico americano.

Juntar no mesmo saco Godard e Dolan (“modernidade”, foi a palavra que Alain Sarde, produtor de Jean-Luc, associou a Xavier) será polémico, pode ser o equivalente, para alguns, à barbárie. Mas é imensamente divertido e é quase… um lampejo de luz revisionista godardiana – e, afinal, em termos de ego, devem ser aproximáveis; como é que Godard disse naquele vídeo? Que o seu filme já não é bem um filme (“mas é o meu melhor”), é uma valsa…

Dancemos, então. Deixando de lado arabescos cabotinos, Julianne Moore no pior filme de David Cronenberg, Map to the Stars (prémio de interpretação feminina), Bennett Miller, melhor realização num filme, Foxcatcher, que pega com pinças, intimidado, sem saber o que escolher, passemos então ao maravilhoso: Le Meraviglie, de Alice Rohrwacher, cinema em estado puro, ou seja, a dar a ver aquilo que é invisível, foi o melhor na competição.

Grande Prémio do Júri, devia ter sido a Palma de Ouro. Que foi parar ao Antonioni turco, Nuri Bilge Ceylan, que, apesar de se acreditar que estava surpreendido, que não julgava possível, há anos que cada presença sua em Cannes, onde já ganhara o prémio de realização e o Grande Prémio, vinha anunciando uma Palma (a segunda para a Turquia, depois de Yol, de Yilmaz Guney, em 1982). O filme, Winter Sleep, também ronda cenas de uma vida conjugal, algo com que Ceylan se tem exposto nos filmes, com seriedade, alguma crueldade até, mas num dispositivo de cenas e diálogos que é bastante ruminante – mas é isso que lhe dá um peso e uma seriedade que tem a cara e o pó das canonizações.

Foi, portanto, quase maravilhoso.

Os prémios


 Palma de Ouro – Winter Sleep, de  Nuri Bylge Ceylan.

Grande Prémio do Júri –  Le Meraviglie, de Alice Rohrwacher.

Prémio de Realização – Bennett Miller, por Foxcatcher.

Prémio do Júri – ex-aequo, Mommy, de Xavier Dolan, e Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard.

Melhor Actor – Timothy Spall, por Mr. Turner, de Mike Leigh.

Melhor Actriz – Julianne Moore, por Map to the Stars, de David Cronenberg.

Melhor Argumento – Leviathan, de Andrey Zvyagintsev.

O júri da Câmara de Ouro, que destingue uma primeira-obra em todas as secções, escolheu Party Girl, de Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis. Ainda nos prémios paralelos, o galardão Un Certain Regard foi para White God, do húngaro Kornel Mundruczo. Winter Sleep recebera já o prémio FIPRESCI, atribuído pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema.

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