Consumo excessivo de sal mantém doenças do aparelho circulatório como principal causa de morte em Portugal

Dados do INE mostram ainda que os diferentes tipos de cancro foram responsáveis por 23,9% das mortes registadas em 2012

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As doenças do aparelho circulatório afectaram sobretudo as mulheres, 77,9 óbitos masculinos por 100 femininos Público (arquivo)

As doenças do aparelho circulatório continuam a ser a principal causa de morte em Portugal. E a explicação para este facto encontra-se à mesa: “Os portugueses ainda não abandonaram o consumo excessivo de sal”, adianta o epidemiologista Mário Carreira.

A análise às causas de morte, divulgada esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostra que as doenças do aparelho circulatório foram responsáveis por 30,4% das 107.969 mortes registadas em 2012. Nesta categoria, que soma 32.859 óbitos, destacam-se a doença isquémica do coração e o enfarte agudo do miocárdio mas, sobretudo, as doenças cerebrovasculares (AVC), sendo que estas atingem mais as mulheres: 76,3 óbitos masculinos por cada 100 femininos.

No total, estas doenças traduziram-se numa taxa bruta de mortalidade de 312.6 óbitos por 100 mil habitantes. É muito. Se recuarmos a 2000, porém, as doenças do aparelho circulatório eram responsáveis por 39% do total de mortes. O seu peso tem vindo assim a diminuir, numa tendência, aliás, que várias décadas. “No contexto europeu, Portugal tinha taxas de mortalidade por AVC absolutamente desmesuradas”, recua Mário Carreira. “Com o alargamento da electricidade a todo o país, que fez baixar o consumo de carnes salgadas, e a melhoria do tratamento dos hipertensos, com mais e melhor acesso aos medicamentos, a mortalidade por acidentes vasculares cerebrais tem diminuído”, explica aquele responsável. “As melhorias no tratamento hospitalar do AVC” são, ainda segundo Mário Carreira, o terceiro factor na base da diminuição da mortalidade associada aos acidentes vasculares cerebrais. “Se tudo continuar a correr bem, nos próximos dez anos deveremos evoluir para padrões mais próximos dos observados nos restantes países da União Europeia”.

Os tumores malignos, pelo contrário, têm vindo a matar cada vez mais gente. Em 2000, tinham sido responsáveis por 20% do total de mortes. Doze anos depois, correspondiam já a 23,9 por cento da mortalidade no país, ou seja, quase um quarto. “Não é que o número de tumores malignos esteja a aumentar”, ressalva Mário Carreira, o que se passa é que “as pessoas morrem menos por outras doenças, logo vivem mais tempo e chegam à idade de ter tumores malignos”.

Enquanto as doenças do aparelho circulatório afectaram sobretudo as mulheres (77,9 óbitos masculinos por 100 femininos), os tumores são mais frequentes nos homens (148 óbitos masculinos por cada 100 femininos).

Além de afectarem mais os homens, os tumores matam mais cedo: a idade média ao óbito foi de 71,6 anos (menos 5,2 anos do que a idade média registada para o total de óbitos).

Por outro lado, entre os tumores malignos morre-se mais quando estes atingem o cólon, o recto e o ânus (3.813 óbitos). Seguem-se os tumores da traqueia, brônquios e pulmão (3.675), do estômago, da próstata e da mama. “Nalguns destes cancros, como o da mama, a letalidade é muito menor do que era antes, mas isto não se reflecte na mortalidade porque, apesar do sucesso no tratamento, há muito mais”, explica ao epidemiologista.

No caso do cancro do cólon e do recto, “a letalidade tem basicamente que ver com a detecção tardia”, o que Mário Carreira atribui à ausência de “programas de rastreio sistemático”. “O teste é uma simples pesquisa de sangue oculto nas fezes, mas tudo isto implica um esforço e uma logística enormes que não são fáceis de conseguir”, conclui.

Anos potenciais de vida perdidos

Na lista de doenças com uma mortalidade mais elevada destacam-se ainda as que afectam o aparelho respiratório: pneumonia, doença pulmonar obstrutiva crónica e a asma. Juntas representaram 12,9% das mortes em 2012 (13.908).

O VIH/SIDA foi responsável por 503 óbitos. Mais de 78% foram de homens e a idade média ao óbito foi de 49,3 anos. Contas feitas, a infecção traduziu-se numa média de 23,4 anos potenciais de vida perdidos. As mortes associadas à infecção por VIH têm vindo a diminuir de forma lenta mas constante: em 2007, por exemplo, registavam-se 698 mortes nesta categoria.

Somadas, as doenças foram responsáveis por 96,3% das mortes em 2012. As restantes 3,7% foram por causas não derivadas de doenças, como sejam a lesão e o envenenamento. Aqui, a idade média ao óbito foi de 63,1 anos (59,6 anos no caso dos homens e 71 no caso das mulheres). O número médio de anos potenciais de vida perdidos devido a causas de morte externas por lesão e envenenamento foi de 23 anos em 2012.

Doze anos antes, as “causas de morte externas” foram responsáveis por 4,5% do total de óbitos.

De acordo com os dados registados, em 2012 houve 1076 mortes por suicídio. Cerca de 80% destas mortes foram de homens e a idade média ao óbito foi de 59,5 anos. Em 2000, o INE registava 525 suicídios. Porém, o problema estaria, como agora, subnotificado, na medida em que, por estigma, questões religiosas ou até mesmo por causa de problemas com seguradoras, muitas destas mortes aparecem disfarçadas nas estatísticas.  

(Notícia actualizada com comentário de especialista)