Ela cresceu, os violinos também

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Ao quarto álbum, Sharon van Etten assume a sua tremenda voz e arranca meia-dúzia de canções capazes de eriçarem os pêlos dos braços mais cínicos. Temos mulher

Eis algumas informações sobre Sharon van Etten que dificilmente encontrarão na Wikipédia: costuma ter bronquite com regularidade, e quando isso acontece fica em casa a ver séries de televisão; nos últimos e tossiquentos tempos, reviu todos os episódios de Louie, a magnífica série escrita, realizada e interpretada por Louis CK.

Foi ela própria que nos contou isto há umas semanas, quando falámos a propósito do recente Are We There, e admitimos que o acima descrito soará estranho a quem só conheça a senhora pela obra, marcada nos três álbuns anteriores por uma espécie de indie-folk desconsolada, quando não negra mesmo. Ouvindo Because I Was In Love (2009), Epic (2010) ou Tramp (2012), não se imagina Etten às gargalhadas — mas em conversa desata a rir a torto e a direito e fala pelos cotovelos.

Foi Tramp que fez van Etten deixar de ser um nome de culto para melómanos e a levou a uma audiência maior. O disco beneficou da produção de Aaron Dessner, um dos gémeos guitarristas dos National — não só pelo som sufocante que Dessner criou, mas também porque os fãs da banda nova-iorquina quiseram conhecer esta musa da folk íntima. Tramp assentava em guitarras acústicas e numa voz contida mas que se percebia ser capaz de ir mais longe do que Sergei Bubka com uma vara. Não será certamente Are We There a alterar a imagem de moça deprimida por amores conturbados que se lhe colou, até porque ela própria considera o último tomo da sua obra “muito mais pesado do que Tramp”.

É um exagero: quanto mais não seja, Are We There tem mais cores do que os discos prévios, por via de uma instrumentação muito mais variada. Quase todas as canções foram escritas ao piano, há cordas, sopros, arranjos luxuosos, cantigas que sobem numa grandiloquência inesperada, e a voz espraia-se livremente, entre o registocrooner e a diva magoada. Se a expressão futebolística “abrir o livro” tiver alguma equivalência literal, então van Etten tem uma enorme biblioteca que revirou de cima abaixo. Não é um salto no escuro, mas é um salto, e portanto um risco: Etten podia ter simplesmente capitalizado no som de Tramp. “Surpreendentemente”, diz-nos, o êxito do predecessor não a fez sentir-se “mais pressionada”. Continua: “Até estava excitada porque ia produzir o disco e tinha uma banda que já conhecia as canções. Não foi stressante, porque estava com os meus amigos — agora é que fico assustada, porque este é o disco mais próximo do que sou e não sei como é que as pessoas vão reagir.”

A mudança sónica, segundo van Etten, foi natural: está “mais confiante a cada disco, mesmo que por vezes tenha medo do lugar onde as canções vão parar”. Além disso, “também [está] a crescer”. E entretanto ficou “farta da guitarra, muito farta mesmo”, insiste, como um português opinando sobre a Troika e Passos Coelho. “Tinha por perto piano e omnichord, pelo que arrisquei escrever em instrumentos diferentes. Sou um bocadinho insegura, mas toda a gente me encorajou a explorar esses instrumentos. E com isso consegui mostrar o meu jogo todo: sou uma cantora, o que não tinha sido no disco anterior, mas também consigo tocar estes instrumentos e dirigir uma banda”.

O conteúdo lírico “é parecido” com o habitual, “mas Are We There não é só sobre relações”. O tema central do disco é modo como “a carreira afecta a vida amorosa”: “Tenho menos vida caseira, porque estou constantemente em digressão, e a minha relação sofre com isso. Estou em casa uma semana por mês. E não é fácil religarmo-nos às pessoas”. Isto é transmitido ora através de frases desesperadas (“I need you to be afraid of nothing”, de Afraid of nothing), ora através de frases negras mas com humor subtil (“Sitting on the porch looking for the way out”, de Taking chances), ora através de frases violentíssimas: “Break my legs so I won’t walk to you”, “Cut my tongue so I can’t talk to you”, “Stab my eyes so I can’t see you”, todas da tremenda e grandiosíssima Your love is killing me. “Pode amar-se imenso uma pessoa e mesmo assim causar-lhe dor. Eu queria retratar isso e só o conseguia sendo literal”, explica-nos. Quando Sharon escreveu a canção, era apenas coisa de guitarra e voz, “e a guitarra era muito repetitiva”. Os músicos com quem gravou reconstruíram a canção “a partir dessa base” e um amigo “trouxe uma linha de órgão que recorda muito a PJ Harvey”. “É a canção mais intensa e mais próxima do rock’n’roll”, diz Sharon — sendo que ela é a primeira a admitir que este álbum é “mais lento” e nele “não há rock’n’roll, não”.

O que a canção quer ser

Your love is killing me é possivelmente o grande tema de Are We There: atingindo mais de seis minutos, começa com um beat, um órgão, uma voz, e lentamente vão-se chegando outros instrumentos (primeiro uma guitarra, depois cascatas de cordas) até se atingir um refrão tipo vulcão em erupção, capaz de eriçar os pêlos dos braços dos mais cínicos. Mas a faixa inicial, Afraid of nothing, já deixa claro ao que van Etten vem: a voz, suave, encima uma melodia delicada ao piano, enquanto atrás uma guitarra harpeja. Do fundo ergue-se um enlevo etéreo de cordas em glissando, à frente a voz ascende e desdobra-se em curvas suaves — uma belíssima canção clássica.

Quase todos os temas são edificados sobre discretos beats — o que, no caso de Taking chances, é logo à partida uma mais valia: a subtil caixa contrasta com a guitarra ruidosa no refrão e com o bordão de órgão no segundo verso. A verdade é que os beats, que abrem quase sempre os temas, enganam. O de Our love faz-nos inicialmente crer que estamos perante uma balada melosa dos anos 80, à Lionel Ritchie, antes de as palmas e o órgão fazerem a sua intervenção em direcção a um refrão suave e enternecedor como pelezinha de bebé. Claro que reconhecemos a velha van Etten em temas como a magnífica Tarifa, mais suportada na guitarra, mais parecida com o disco anterior — mas mesmo aí há sopros e metais na ponte, que, claro, sobe até à beleza. 

Dizemos-lhe que, como nos recentes discos dos War On Drugs ou dos The Men, há algo de Dylan pós-pneumonia em Are We There, no sentido em que, como em Time Out of Mind, os instrumentos parecem andar à procura do seu lugar na canção. “Tens bom ouvido, porque o escutei muito”, responde. “Tudo o que andei a ouvir era assim, aliás.” Essa liberdade instrumental veio de ter-se sentado “a compor ao órgão”: “No órgão consigo segurar o acorde e o bordão sustém o tema, dando mais espaço à melodia de voz. Em resultado disso, as melodias de voz tornaram-se mais livres. E, para acompanhar, comecei a escrever beats sozinha”.

O desafio, depois das canções escritas, foi “decidir o que fazer com os instrumentos” — e “restringir[-se]”, para evitar que se levantasse “uma parede de som muito densa” contrariando o desejo de “que se ouvisse bem cada instrumento”. “Tens de te perguntar: qual é a essência da canção? Havia tantas hipóteses de arranjos que eu tinha de me lembrar como a canção começara — e era sempre com um beat e um orgãozinho.” A decisão final, que marca o som do disco, acabou por ser simples: “Não quis enterrar as canções em arranjos só para soar grande”, resume. As cordas, por exemplo, foram “ideias de amigos”, que em conversa lhe diziam ouvir “violinos a crescer” em alguns temas.

As palavras dos amigos revelaram-se acertadas, e as decisões tomadas idem. Agora a senhorita van Etten terá de levar este disco para a estrada, o que não será fácil: “Vamos ter piano, órgão, mas ainda não sei se vamos ter os beats. Eu não era assim, mas agora divirto-me imenso a mudar as canções para o registo ao vivo. É um desafio: deixar a canção descobrir como quer ser. Muitas vezes tens pouco tempo em estúdio, precisas de um modelo rapidamente e é essa a canção que fica em disco, quando podia ser muito diferente. Dou um exemplo simples: agora vou ter de cantar e tocar teclas ao mesmo tempo, e isso vai mudar as canções”.

Tudo certo, mas não as mudes muito, pequena, elas estão óptimas assim.
 

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Sharon van Etten
Are We There
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