Os sete pecados eleitorais

Manifestar orgulho pela situação actual de Portugal é, no mínimo, surreal, ou seja, fica no ar uma espécie de "orgulhosamente piores"

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Rafael Marchante/Reuters

A campanha eleitoral para as eleições europeias tem sido marcada pelo falso arranque da Aliança Portugal. Numa primeira instância, foram os 101 dálmatas do Twitter e a milagrosa política de incentivo à natalidade que marcaram o percurso inicial de Paulo Rangel. Com a companhia assídua de Nuno Melo, a história é outra, dado que os pecados eleitorais seguiram-se de forma estonteante e mirabolante.

Gula. Querer ainda mais desigualdade e mais um legado de direita submetida às políticas de Merkel é o expoente máximo da gula. Porquê? Jean-Claude Juncker defendeu, ainda não há muito tempo, a conformação de uma Europa a duas velocidades, com objectivo que o bloco mais forte conseguisse sobreviver. É possível votar num bastião da desigualdade? É coerente? De facto, Jean Buridan, filósofo francês, antecipou os dilemas e paradoxos do asno europeu.

Avareza. A coligação da Aliança Portugal tem medo de perder o poder. Não é por acaso que as críticas, em grande parte, não foram dirigidas a Francisco Assis, mas a António José Seguro (AJS), líder do PS. Este egoísmo de perda é tão sintomático num discurso vazio, numa narrativa defraudada – sim, culpar os socialistas por despesismo não faz sentido quando a dívida pública está em 130%, tal como brindar a descidas de taxas de juro, quando isso acontece em toda a Europa, sem excepção – e sem rumo.

Luxúria. A maior luxúria do homem será aquela em que este se lança aos prazeres mundanos sem pensar nas consequências dos seus actos. Somos um país com mais pobres, com mais desempregados, com mais emigração, com maior desigualdade social, com menos Estado Social. O que fazer? O Nuno Melo abre uma boa garrafa de champanhe.

Ira. A ira da direita pelas mãos de Nuno Melo e Rangel é sinónimo de fim da narrativa. O centrista, como se tivesse algum problema cognitivo, repetiu várias vezes que se sentia obcecado pelo PS. Por outro lado, o cabeça-de-lista do PSD só conhece a palavra "despesismo". Tal ira advém do fracasso das políticas de austeridade defendidas pela direita.

Inveja. José Sócrates, ironicamente, dizia que era o candidato que a direita gostava de ter. O tempo veio dar-lhe razão. Paulo Rangel e Nuno Melo acusaram de tal forma as declarações de Passos Coelho acerca de um possível entendimento com o PS que, de forma repentina, os dois comparsas desataram a exprimir admiração por José Sócrates. Eis que surge, assim, o apreço depois da inveja.

Preguiça. Jean-Claude Juncker, numa mensagem moral aos socialistas, afirmou o seguinte: "Eles lembram-me um dos vossos compatriotas mais prestigiados: Cristóvão Colombo. Quando partia nunca sabia para onde ia, quando chegava nunca sabia onde estava, e era o contribuinte que pagava a viagem. É desta forma que procedem os socialistas dos nossos dias". Só pode ser preguiça não estudar um pouco sobre um país membro – nem que seja na Wikipédia. A preguiça ou ignorância de Juncker descredibiliza a direita europeia.

Orgulho. Manifestar orgulho pela situação actual de Portugal é, no mínimo, surreal, ou seja, fica no ar uma espécie de "orgulhosamente piores".

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