Crítica

Liberdade e arquitectura

Ricardo Bak Gordon usa o desenho como laboratório para uma arquitectura aberta à imprevisibilidade e à incerteza da vida

A presença do desenho na arqueologia do pensar e do fazer da arquitectura é comum e muitos arquitectos usam o desenho ou como laboratório ou como uma espécie de notação do mundo que os rodeia. Por isso, os desenhos surgem enquanto tentativas de fixar uma ideia ou enquanto experiências espaciais. No nosso tempo, o esquisso, o traço e a materialização sensível do desenho tendem a ser substituídos pela imagem digital, pelo snapshot imediato do iPhone, pelo simulacro 3D, entre outros. No caso de Ricardo Bak Gordon, porém, os desenhos surgem precisamente como uma espécie de resistência à rapidez dos mecanismos digitais e como forma de reclamar um tempo diferente para o desenvolvimento das intuições e concepções espaciais. Nestes desenhos agora expostos na Galeria da Boavista, o tempo surge como uma atmosfera que se tenta reivindicar para os espaços imaginados e desejados. E é neste contexto que surge a tão sedutora e particular utilização da cor. Não se trata de uma questão estética, compositiva ou representativa, mas de uma compreensão do espaço construído, isto é, dos lugares, como campos de energia caracterizados por um particular balanço entre a rigidez (da estrutura, da tipologia, do betão, da pedra) e a sensibilidade (da vida com todos os seus acontecimentos imprevisíveis e irracionais que a arquitectura deve permitir). Muito interessante nestes “esquissos” é o facto de apresentarem imediatamente o fazer da arquitectura não enquanto um fazer abstracto no espaço da geometria euclidiana, como tantas vezes parece ser sugerido por desenhos “técnicos” como as plantas, os cortes e os alçados, mas como uma grandeza extensível, próxima da mão humana, do corpo, da matéria sensível. E é esta compreensão que o arquitecto leva destes desenhos para os projectos - isto é, o facto de a mão pensar leva para o projecto não uma grandeza ou uma escala determinadas, mas um certo modo de sentir o espaço. E aqui sentir é uma forma do pensamento e da imaginação. Estas qualidades sensíveis não implicam que estejamos perante desenhos “expressionistas” em que reina a desmedida, a “irrazão” ou o sentimento. As visíveis indicações métricas, por exemplo, mostram como eles são, fundamentalmente, exercícios de aproximação a um espaço por vir. Uma espécie de laboratório arquitectónico onde se mostra a arquitectura não como um saber técnico, ocupado com engenharias e falando uma linguagem distante da da vida, mas um saber sensível, tangente à vida. Esta compreensão do desenho de arquitectura não é exclusiva de Bak Gordon e fá-lo pertencer a uma família em que a compreensão da arquitectura ainda é feita no quadro da tradição humanista e cultural. Não é uma cegueira em relação à crise, ao tempo e às patologias do mundo contemporâneo, mas uma espécie de persistência na exigência de as formas materiais deverem ser portadoras da transformação e do sentido. Trata-se, pois, de acreditar que elas podem ser significantes, e política e socialmente pertinentes, sem para isso necessitarem de um discurso legitimador - e que a sua pertinência reside, precisamente, na impossibilidade de apropriação por qualquer tipo de ideologia. Deve ainda realçar-se o modo como as formas que nascem destes desenhos se mostram independentes, aos olhos dos seus espectadores, de qualquer programa. Não é determinante precisar a utilização futura dos espaços fixados nestes desenhos para os poder ver e perceber. Eles surgem libertos da função e esta independência não é sinónimo do desprezo da arquitectura pelas formas de vida, mas assinala a certeza de que os acontecimentos, as acções e a vida que a arquitectura alberga são sempre imprevisíveis e incertas e de que, por isso, a arquitectura tem de manter no seu centro esse espaço de liberdade e de indeterminação. Não se trata de defender uma arquitectura incerta, mas de sublinhar a forma arquitectónica como espaço de liberdade. E é esta liberdade sensível e funcional que, prima facie, está no centro destes desenhos.