Comboio Porto-Vigo vai ser mais confortável e ter paragens em cidades do Minho

Celta terá automotoras novas e vai parar em Viana, Nine e Barcelos. Melhorias vão ser anunciadas na próxima cimeira ibérica que vai ter lugar a 4 de Junho em Chaves.

O material circulante ao serviço da ligação Porto-Vigo já data dos anos 1980
Foto
O material circulante ao serviço da ligação Porto-Vigo já data dos anos 1980 Nélson Garrido

Os governos de Portugal e Espanha estão empenhados em manter o comboio Celta a ligar Porto e Vigo, mas este passará a usar material mais moderno, mais rápido e confortável e efectuará paragens comerciais em Viana do Castelo, Barcelos e Nine (onde dará ligação a Braga).

Estas medidas, que estão a ser discutidas ao mais alto nível, deverão ser anunciadas na próxima cimeira ibérica, que se realizará num hotel de Vidago (Chaves) a 4 de Junho.

A insistência no Celta é justificada como uma primeira fase de um projecto de mobilidade ferroviária que só terá realmente sucesso quando a linha do Minho for modernizada e nela puderem circular comboios eléctricos.

Nessa altura, e depois de eliminadas, também, as actuais restrições ao nível dos cruzamentos, o futuro Celta poderá ser uma alternativa rápida, cómoda e barata para unir a Galiza e o Minho. Para já, a ordem é para aguentar um serviço que vai somando prejuízos, os quais poderão ser atenuados com a introdução de mais paragens comerciais.

No curto prazo, as automotoras 592 deverão ser substituídas por modernas composições da série 594 ou 598, que já são verdadeiros comboios do século XXI devido, sobretudo, ao seu grau de conforto. Actualmente o Celta é efectuado por automotoras que datam dos anos 80 e que já nem sequer estão em serviço em Espanha. Trata-se de material que a Renfe alugou à CP e que opera também na linha do Douro, não tendo a composição do Celta nada de relevante que diferencie um serviço internacional de um vulgar comboio regional.

O PÚBLICO noticiou ontem que a ligação Porto-Vigo tem acumulado prejuízos devido à sua fraca procura, que ronda os 26 passageiros por viagem, com uma taxa de ocupação de 12%. O comboio resultou de um “impulso” dos ministros Álvaro Santos Pereira e Ana Pastor que deram indicações às empresas que tutelam (CP e Renfe) para lançarem um comboio sem paragens entre as duas cidades.

E é precisamente essa ausência de paragens comerciais (em rigor o comboio até pára várias vezes para poder cruzar-se com outros em sentido contrário) que os autarcas contestam. Os presidentes das câmaras de Viana do Castelo e de Braga insistem na necessidade de se alterar o serviço prestado pelo Celta, de modo a que este sirva estas capitais de distrito. “Nenhum serviço é rentável sem procura. Enquanto não tivermos condições para aproveitar o enorme potencial que existe na ligação a Braga (Nine) e Viana do Castelo, a procura do comboio ficará sempre aquém do possível”, alerta o autarca de Braga, Ricardo Rio, numa reacção enviada por e-mail.

O presidente da Câmara de Viana, José Maria Costa, diz ter indicações da CP e do Ministério da Economia no sentido de que, já em Junho, o Celta vai passar a parar nesta cidade. Mas este autarca, ex-presidente do Eixo Atlântico, cuja assembleia-geral lidera, insiste em que a paragem de Nine é essencial. “Serviria Braga, mas também Barcelos”, assinala, exigindo que não se desperdice o potencial de atracção turística destas três cidades. Viana, explicou, tem estado a promover-se em cidades galegas, o que na sua perspectiva torna ainda mais importante a possibilidade de vir a ter uma ligação ferroviária àquela região de Espanha.

José Maria Costa olha para os números revelados pelo PÚBLICO esta segunda-feira com um duplo sentido. Para além dos prejuízos avultados – que as tais paragens poderiam ajudar a reduzir, considera – o autarca nota que já houve um aumento da procura, face ao que se verificava antes no trajecto Porto-Vigo. E não deixa de ver neste aspecto a prova de que, com investimento, este serviço pode tornar-se mais competitivo.

Xoán Mao, presidente do Eixo Atlântico, desdramatiza os prejuízos dizendo que o comboio serve uma região (Minho mais Galiza) com oito milhões de habitantes, devendo melhorar-se a ligação - com mais paragens intermédias para servir mais cidades – e não desistindo dela porque o objectivo, diz, é que no futuro a ligação entre Porto e Vigo seja feito com um Alfa Pendular português ou um Alaris espanhol.

O presidente do Eixo Atlântico vai mais longe e acha mesmo que, depois da modernização da linha, deverá haver uma ligação La Coruña – Algarve.

“A taxa de ocupação não é um argumento para se criticar o Celta porque então deviam fechar-se as SCUT. Aí é que Portugal poupava dinheiro porque nos acordos, que não são públicos, entre o Governo português e os concessionários, eles recebem um montante independentemente do número de utilizadores”, disse Xoán Mao.

Este responsável identifica quatro factores para que o Celta passe a ser um sucesso comercial: a viagem tem de ser feita em 1h30 e não em 2h15, tem de ter mais frequências diárias do que as actuais duas em cada sentido, tem de servir Viana, Nine e Barcelos em vez de ser directo entre Porto e Vigo, e tem de ser um comboio mais cómodo do que o actual.

“Se têm dúvidas, se acham que [o Celta] só dará prejuízo, desafio-os a tentarem privatizá-lo a ver se não haverá interessados”, disse ao PÚBLICO.

com Abel Coentrão