Mais de 70% dos portugueses que trabalham por conta própria têm apenas o ensino básico

Portugal é o pior dos 28 países da União Europeia no tocante à escolarização: 70,6% dos trabalhadores por conta própria não passaram do ensino básico e apenas 40% da população completou o secundário, contra uma média comunitária de 75,2%.

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Portugal não é pequeno e está longe de ser um país de “doutores e engenheiros”. O retrato de Portugal na Europa apresentado nesta segunda-feira pelo Pordata, a base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que compara os indicadores portugueses com os dos 28 países membros da União Europeia, deita por terra algumas ideias feitas sobre a sociedade portuguesa e mostra, segundo a demógrafa Maria João Valente Rosa, o muito que o país tem a fazer, sobretudo em termos de educação.

“Portugal é o terceiro país com níveis de abandono escolar mais elevados, apesar dos progressos significativos das últimas décadas”, aponta a directora do Pordata. Pior do que Portugal, que apresenta uma taxa de abandono escolar entre os 18 e os 24 anos de 19,2%, só a Espanha e Malta (23,5% e cerca de 20%, respectivamente), que inauguram uma lista cuja média se situa nos 11,9%.

Pior: entre os 25 e os 64 anos, apenas 40% dos portugueses têm o ensino secundário completo. “É o último da tabela dos 28 países. A média dos países ultrapassa os 75%”, alarma-se a demógrafa, para quem ouvir dizer que “Portugal é um país de engenheiros e doutores”, como já ouviu de “pessoas com muitas responsabilidades no país”, além de mentira, “tem efeitos terríveis sobre uma sociedade que nem gente suficiente com o secundário tem”.

Não surpreende assim que no quadro onde se mede a percentagem de trabalhadores por contra própria sem o secundário completo Portugal volte a liderar pelas piores razões: 70,6%, contra uma média de 24,3%. Entre os trabalhadores por conta de outrem, 50,4% dos portugueses também não completaram o secundário, contra os 17,9% da média europeia. “Nós herdámos uma situação terrível do ponto de vista da escolaridade. Tínhamos taxas de analfabetismo terríveis e só em 2008 é que a população sem qualquer nível de escolaridade ficou abaixo da população com o ensino superior”, relativiza a demógrafa, para quem, porém, a situação portuguesa se torna mais grave se nos lembrarmos que os 15,1% dos portugueses que têm o ensino superior estão “em boa parte a ser empurrados para fora do país”.

Acresce que Portugal se destaca também por ser dos países com mais chumbos na escola. “A não ser que se pense que as crianças portuguesas têm, do ponto de vista genético, um handicap que as torna menos inteligentes que as finlandesas, somos obrigados a concluir que algo está mal na escola portuguesa”, acusa, para sublinhar que, tanto como prolongar a escolaridade obrigatória até ao 12.º ano, o país devia repensar o seu sistema de ensino.

As lacunas nas qualificações dos portugueses são a chave que ajuda a explicar outro dos indicadores em que Portugal sai mal na fotografia: na produtividade laboral por hora de trabalho, e se tivermos 100 como valor de referência, Portugal fica-se pelos 65. “Nós trabalhamos muito mais horas, porém, estamos em 21.º lugar em termos de produtividade e, na minha opinião, isso deve-se às baixas qualificações dos portugueses. Quando constatamos que quase 71% dos trabalhadores por conta própria têm apenas o ensino básico, percebe-se onde é que estão os obstáculos”.

Na análise que faz dos diferentes indicadores, Maria João Valente Rosa descarta o argumento do tamanho para justificar a má performance portuguesa no jogo de forças entre os países da União Europeia. “Somos o 11.º país da União em termos populacionais. Somos quase tantos como a Bélgica e o dobro da Dinamarca e da Finlândia. Mesmo olhando para a superfície do território, somos o 13.º, ou seja, o máximo que poderíamos dizer é que somos um país médio no contexto da União Europeia”, enfatiza.

Quanto à população, confirma-se Portugal como um país envelhecido. É o país com menos filhos por mulher (1,28 contra os 1,58 da média comunitária). A França, onde houve um fortíssimo investimento na natalidade nas últimas décadas, destaca-se com 2,01 filhos por mulher em idade fértil, seguindo-se a católica Irlanda e o Reino Unido. E note-se que a baixa natalidade portuguesa não é propriamente uma opção. No mais recente inquérito à fecundidade, o Instituto Nacional de Estatística mostrou que as pessoas têm em média 1,03 filhos mas desejariam ter 2,31 filhos. E os “custos financeiros” surgiam como o motivo mais apontado para a decisão de não ter filhos.

Portugal é também o sexto país com mais idosos por cada 100 jovens: 129,4 (115,5 na União Europeia a 28). No quadro das despesas das famílias em saúde no total de despesas, Portugal volta a surgir em primeiro lugar: os portugueses gastam 5,8% do seu orçamento em Saúde, face a uma média de 3,5%. Mas, no capítulo da Saúde, há um indicador em que Portugal se comporta como os países da Europa do Norte: a mortalidade infantil fixa-se nos 3,4 por mil, abaixo dos 3,8 da média europeia. “É uma das taxas mais baixas do mundo”, sublinha Valente Rosa, “e isso torna-se ainda mais relevante se nos recordarmos que em 1960 éramos os piores”.

Portugal também não se sai mal na medição sobre a população sem capacidade para assegurar o pagamento de despesas inesperadas. Quase 36% das famílias dizem-se sem essa capacidade. São muitas. Porém, a média comunitária é de 40,2% e quer Espanha quer a Grécia ficam acima dessa linha. Porém, se compararmos com 2077, temos o dobro das famílias portuguesas nessa situação. O que mostra o impacto da crise na situação financeira das famílias.