Um museu de animação no espaço rural

Abi Feijó e Regina Pessoa inauguram este domingo, na sua casa numa aldeia de Lousada, um museu de cinema de animação. É um equipamento especialmente virado para a pedagogia e para a revelação da magia das imagens em movimento anteriores ao cinema.

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Abi Feijó e Regina Pessoa Miguel Nogueira
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Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada. Miguel Nogueira
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Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada. Miguel Nogueira
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Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada. Miguel Nogueira
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Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada. Miguel Nogueira
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Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada. Miguel Nogueira

“Wake up and make your dreams come true” (“Acorda e faz com que os teus sonhos se realizem”). A inscrição que Regina Pessoa mostra na t-shirt é todo um programa. Vestida de modo operário, a realizadora de cinema de animação acompanhava o seu companheiro Abi Feijó, na quinta-feira, a ultimar os trabalhos que finalmente permitissem a inauguração, este domingo, Dia Internacional dos Museus, da Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento, em Lousada.

O nome é ainda provisório, e a sua instalação é um processo que irá prolongar-se pelo tempo adiante. “Todos os museus estão sempre em construção”, diz Abi Feijó, enquanto guia o PÚBLICO na visita aos espaços que concretizam o projecto a que deitou mãos há um par de anos, e que surgiu na sequência da decisão de abandonar o Porto e regressar às origens – ou seja, voltar à casa onde viveu a infância e que entretanto herdou em partilha familiar.

O solar centenário localizado no lugar da Senhora da Aparecida, concelho de Lousada (a 40 quilómetros do Porto), torna-se, a partir de agora, um improvável museu do cinema de animação no espaço rural, paredes meias com a casa de Abi Feijó-Regina Pessoa mas também de um casal canadiano-americano de músicos e produtores de cinema, Marcia Page-Normand Roger, que os animadores portugueses conheceram nas suas andanças pelo mundo.

“Como estes nossos amigos nos disseram, um dia, que gostariam de adquirir uma casa de campo na Europa para quando se reformassem, quando decidi regressar à casa dos meus pais perguntei-lhes se gostariam de viver em Portugal – eles responderam logo que sim”, conta Abi Feijó, explicando que só assim pôde reunir as condições para regressar ao campo e também para avançar com o projecto do museu.

O museu ocupa agora as três primeiras divisões da ala principal desta casa senhorial da segunda metade do século XIX, e que Abi Feijó mantém na sua traça original e com a patine do tempo, tendo apenas realizado as alterações mínimas exigidas para o novo equipamento: rampa de acesso para deficientes, restauro das salas e adaptação da armação técnica para iluminação e instalação das peças do espólio.

Aparatos mágicos
Uma mesa-vitrina recebe os visitantes com uma mostra de placas coloridas para lanternas mágicas. Este que é o aparato mais popular de quantos precederam o cinematógrafo dos Lumière é a peça mais destacada nesta sala do Pré-Cinema. Entre os vários exemplares existentes, avulta uma lanterna mágica bi-unial (duas lentes) a projectar imagens em movimento na parede: um militar a saltar a corda, uma mulher a tentar manter-se equilibrada na sela de um cavalo…

Uma série de outros aparelhos que precederam o cinema – praxinoscópios, fenaquitiscópios, zootrópios, taumatrópios, panópticos, kinoras, flip books… – é também exibida nesta sala. “Interessa-me, acima de tudo, mostrar como ao longo do tempo, e desde a Pré-História, sempre houve a vontade de contar histórias através de imagens e da sugestão de movimento”, explica Abi Feijó, que reconstitui essa história com peças que ele próprio foi adquirindo ao longo da sua vida, em lojas e feiras de velharias em diferentes cidades do mundo, “mas também através da eBay”.

A segunda sala é dedicada aos filmes de Abi Feijó e de Regina Pessoa, feitos sob a chancela dos estúdios Filmógrafo e Ciclope Filmes: Os Salteadores (1993), Fado Lusitano (1995), Clandestino (2000); mas também A Noite (1999), História Trágica com Final Feliz (2005) e Kali, o Pequeno Vampiro (2013). Uma das paredes está preenchida com vários painéis da exposição documental dedicada a História Trágica com Final Feliz, um dos filmes mais premiados na história da animação portuguesa, e que foi já apresentada em dezena e meia de cidades de sete países diferentes. Um ecrã exibe excertos destes filmes.

Animação mundial
A terceira sala reúne desenhos e outros documentos de autores da animação internacional, pertencendo a maior parte deste espólio a Marcia Page e Normand Roger. “Estão aqui representados autores dos mais importantes da animação mundial”, mostra Regina Pessoa, apontando para desenhos originais de realizadores como o francês Frédéric Back, o holandês Michael Dudok de Wit, as canadianas Amanda Forbis e Wendy Tilby, ou o norte-americano Bill Plympton, todos eles com filmes distinguidos com Óscares, Palmas de Ouro de Cannes, Cartoon d’Or e grandes prémios de festivais como Annecy (França) e Cinanima (Espinho).

Num edifício autónomo da casa principal, o museu é completado com uma sala polivalente, que servirá de auditório, espaço de conferências e de workshops. Uma quinta divisão acolhe a recepção, uma biblioteca, uma loja de venda de artigos de animação – e mostra também as dezenas de prémios conquistados pelos filmes de Abi e Regina.

Apesar de toda esta panóplia de objectos, a pedagogia é a valência a que Abi Feijó dá mais importância no seu museu. Espera ainda que a Câmara Municipal de Lousada – concelho onde não existe ainda nenhum museu – possa apoiar o projecto estabelecendo parcerias, e encaminhando para a sua casa, crianças das escolas da região. Até ao momento, a Casa-Museu de Vilar só tem, prometido, o apoio de fundos europeus do Proder, num valor próximo dos cem mil euros. Tem recebido apoio informal do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, na figura da sua directora Maria João Vasconcelos; e espera estabelecer também uma parceria com a Cinemateca Portuguesa a partir do próximo ano lectivo.

“A pedagogia da animação tem sido a minha vida. Espero que este museu dê continuidade a esse trabalho”, diz Abi Feijó, ao mesmo tempo que confessa o seu sonho de construir um Teatro Óptico idêntico àquele com que Émile Reynaud impressionou os parisienses pouco tempo antes do cinematógrafo dos Lumière.

“Por que é que nos meteste em mais esta aventura? Ai que saudades que eu tenho da vida calma da cidade!...”, comentava, a seu lado, Regina Pessoa.

FICHA

Casa-Museu de Vilar – A Imagem em Movimento

Senhora da Aparecida, Lousada

Inauguração às 16h30. Horário de funcionamento ainda a estabelecer.

Telf: 255913446

[email protected]

GPS:  41•16'59.60"N  8•13'16.20"W