À procura do primeiro hat-trick

Bert Patenaude, avançado norte-americano, marcou três golos num só jogo durante o Mundial de 1930, mas a FIFA levou 76 anos a reconhecer este feito.

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O futebol nos EUA tem um berço: Fall River, no estado de Massachusetts, cidade industrial da costa leste norte-americana que foi foco de muita imigração europeia no final do século XIX e início do século XX. O “foot-ball” chegou com os ingleses e os escoceses e desenvolveu-se quando chegaram os latinos, entre eles uma numerosa presença portuguesa. Foi de Fall River que saíram as primeiras lendas do soccer, uma dupla de avançados com sabor português formada por Adelino “Billy” Gonsalves (assim mesmo, com “s” em vez de “ç”), com raízes na Madeira, e Bert Patenaude, prolífico avançado que ficou na história do futebol mundial só depois da sua morte. Foi ele o autor do primeiro hat-trick em Campeonatos do Mundo, mas levou 75 anos a ser reconhecido como tal.

Se, actualmente, é a Europa o continente mais representado no torneio, não era o caso no Mundial de 1930, realizado no Uruguai. Dos 13 participantes, sete eram da América do Sul, quatro da Europa e dois da América do Norte. Não houve qualificações. Todos os membros da FIFA foram convidados a participar, mas a geografia ditou as suas leis e, dois meses antes do início do torneio, ainda não havia selecções europeias inscritas. A intervenção de Jules Rimet, presidente da FIFA, não deixou que isto acontecesse. Todas fizeram a travessia do Atlântico para chegar à América do Sul, três delas (Roménia, França e Bélgica) a bordo do paquete italiano SS Conte Verde (com paragens em Lisboa e na Madeira), que apanhou, pelo caminho, a selecção brasileira, antes de chegar a Montevideu.

A 13 de Julho, de 1930, um francês ganhou o seu lugar na história. Lucien Laurent, avançado do Sochaux, foi o primeiro marcador num Mundial, autor do primeiro golo do triunfo francês por 4-1 contra o México. Apesar desta demonstração goleadora, os franceses ficaram-se pela primeira fase. Os qualificados para as meias-finais seriam Argentina, Jugoslávia, Uruguai e EUA. O corpo estranho neste grupo eram os norte-americanos, apelidados pelos franceses de “lançadores de peso”, mas a mostrar uma incrível eficácia, 3-0 contra a Bélgica e 3-0 contra o Paraguai. O jogo contra os paraguaios teve um herói, Bert Patenaude, o homem de Fall River, mas não com a importância devida.

Segundo os registos da altura, Patenaude marcou dois golos dos três golos desse jogo, sendo que o terceiro (o segundo do jogo) foi tendo vários autores ao longo dos anos. Começou por ser dado como um autogolo de González, depois foi creditado a Tom Florie, o capitão de equipa. Entretanto, dois dias depois do EUA-Paraguai, o argentino Guillermo Stabile marcava três golos ao México e tornava-se, de acordo com os registos oficiais, o autor do primeiro hat-trick da história dos Mundiais de futebol. Mas algo não batia certo. A memória dos jogadores norte-americanos e do treinador dava Patenaude como autor dos três golos, uma versão corroborada pelas crónicas da imprensa. Mas a FIFA não mudou de ideias e manteve a sua versão.

Tudo mudou quando, em 2006, o organismo que gere o futebol mundial colocou uma mensagem no seu site oficial a reconhecer o feito de Patenaude, que tinha morrido em 1974 (no mesmo dia em que nascera em 1909, 4 de Novembro), convicto do que fizera. “Nem queria acreditar. E pensar que eles levaram tanto tempo a preceber”, disse à ESPN Bert Patenaude Jr., o filho do goleador esquecido pela FIFA. Depois de um jogo particular logo a seguir ao Mundial, Patenaude, que acumulava o futebol com biscates como pintor, não mais voltou a jogar, mas os seus quatro golos num único Mundial (e o hat-trick) continuam a ser o recorde a bater pelos jogadores norte-americanos.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos