Empresa e Governo insistem em negar responsabilidades na tragédia da mina de Soma

Confirmadas 299 mortes na mina onde ocorreu um incêndio seguido de explosão

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Dois dias depois de Recep Tayyip Erdogan ter reagido ao pior desastre mineiro da Turquia dizendo que “os acidentes acontecem”, mesmo nos países ocidentais, a empresa proprietária da exploração de carvão em Soma negou ter “cometido qualquer negligência neste acidente”. Entretanto, depois da greve e das manifestações dos sindicatos reprimidas em várias cidades do país, esta sexta-feira a polícia usou canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar vários milhares de pessoas num protesto em Soma.

Com 299 mineiros confirmados mortos no sábado, há pelo menos três que continuam presos no interior da mina. "Foi um acidente inacreditável num sítio onde houve muito poucos acidentes nos últimos 30 anos", disse o presidente da Soma Holding, Alp Gürkan, numa conferência de imprensa, referindo-se à mina em causa como uma mina "com mineiros de primeira categoria, aceite como sendo a mais fiável e organizada".

Logo depois do acidente, na terça-feira, os responsáveis da mina apontavam para que a explosão num transformador tivesse provocado o incêndio que alastrou com rapidez e levou ao colapso de parte da mina. Agora, a empresa garante que não foi isso que aconteceu, negando falhas de manutenção – afinal, terá sido um aumento inexplicável de calor a provocar o fogo e o desabamento.

Em Ancara, o partido no poder garantiu entretanto que esta mina foi inspeccionada onze vezes nos últimos cinco anos, sempre “meticulosamente”. “Como podem ver, todos os nossos empregados trabalham em condições óptimas de segurança”, disse Alp Gürkan, mostrando uma fotografia de mineiros numa das galerias da mina.

Não é bem isso que muitos mineiros e familiares de mineiros têm contado aos jornalistas que se deslocaram a Soma, no ocidente do país. “Havia um pré-aviso de uma semana que chegava de Ancara e éramos instruídos para nos prepararmos” para as inspecções, contou Ramazan, um mineiro, à Reuters. “Eles ainda usam equipamento de soldadura com tubos de oxigénio. Toda a gente sabe isso”, acusa Hüseiyn Acar, ex-mineiro de 77 anos que ainda não sabe se o neto está vivo ou morto. “Quando os inspectores chegam, eles tiram de lá todo o material inflamável”, disse ao jornal turco Zaman (da oposição).

Os sindicatos responsabilizam as políticas de privatização rápidas dos últimos anos (Erdogan é primeiro-ministro desde 2003) e as escolhas pelo lucro fácil. Em 2012, numa entrevista a um jornal turco, Alp Gürkan vangloriava-se de ter conseguido reduzir os custos de produção de 130 dólares (95 euros) por tonelada para 24. A imprensa também tem dado conta de ligações demasiado próximas entre os empresários do sector e o partido de Erdogan: a mulher de Ramazan Dogru, supervisor da mina de Soma, é membro do AKP local.

Sentindo-se encurralado, no centro de um escândalo de corrupção que envolve muitos membros do partido e provavelmente o próprio, o chefe do Governo que quer candidatar-se à presidência em Agosto já habitou os turcos a responder ao ataque. Desta vez, ao discurso displicente sobre os acidentes fazerem “parte da história das minas”, Erdogan foi atacado por familiares dos mineiros e teve de ser arrastado para uma mercearia. Na quinta-feira, foram publicadas fotografias de um assessor a pontapear um familiar; sexta, surgiu nas redes sociais um vídeo muito confuso, gravado com telemóvel dentro da mercearia, onde Erdogan parece dar um estalo a um dos manifestantes.

Quase a cumprir-se um ano da vaga nacional de protestos inéditos que começou no parque de Gezi, em Istambul, que o primeiro-ministro queria derrubar para construir um centro comercial, parece haver cada vez mais turcos zangados com Erdogan. Nas ruas, grita-se agora mais contra o primeiro-ministro do que contra os responsáveis da mina.