Autómatos com sentimentos

MARIO DEL CURTO
Foto
MARIO DEL CURTO

Os autómatos também sentem, supõe Amit Drori. Para fechar a boca de espanto, ei-lo finalmente por cá com Savanna: A Possible Landscape

É preciso passar para lá do espanto e da surpresa para encontrar a metáfora que Amit Drori quis criar com Savanna: A Possible Landscape, espectáculo de 2010 que o Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas traz ao Teatro Nacional D. Maria II amanhã, sábado e domingo. Em palco, os autómatos com a forma de elefantes, tartarugas, pássaros e cabras ocupam, e formam, a paisagem que este encenador e marionetista israelita quer transformar em parábola sobre a origem da vida. Mas, para lá do espanto, o que vemos é a intimidade de uma relação filial — um rapaz que quis recuperar a memória da mãe através de um piano que aprendeu a odiar. E que depois reconstruiu, sob a forma de apaixonantes animais que expressam emoções a partir de automatismos mecânicos. Parece estranho — mas é uma experiência feita à escala da expectativa.

Drori, filho de um arquitecto e de uma especialista em cultura medieval, é um dos nomes mais em voga no circuito do teatro de marionetas: os seus espectáculos têm sido criados, em residência ou em co-produção, nos mais importantes festivais e teatros da Europa, como o Barbican, em Londres, ou o Festival de Charleville-Meziéres, em França, a meca das marionetas. No perfil que lhe é traçado pelo programador do Barbican, explica-se que a influência dos pais justificou a inclusão de elementos autobiográficos nos seus espectáculos, descritos como processos intermináveis. “Cada criação amadurece lentamente fazendo com que este jovem encenador israelita demore anos até completar um espectáculo. Foi através de um envolvimento cada vez mais intenso com a mecânica que conseguiu transformar os seus animais em objectos robóticos autónomos.”

Amit Drori diz que as suas marionetas são caseiras — chama-lhes “esculturas ciganas” pelo modo como parecem inventar soluções a partir das suas próprias necessidades. “Criamos robôs por razões poéticas”, explica sobre as razões que o levam, desde há anos, a perseguir modos de composição narrativos que querem ir mais longe do que o espanto e a surpresa. “Temos como garantido que o homem é capaz de fazer, com um simples gesto, coisas que são óbvias. Mas quando são os objectos que se movem não é possível prever o que podemos esperar deles, porque não é evidente que uma máquina possa sentir ou sequer ter sentimentos.”

As emoções adequadas

Porque os robôs estão muitíssimo expostos e a sua mecânica é visível durante o espectáculo, Amit Drori distingue o efeito da técnica: “Nunca quisemos criar uma metáfora. Aquilo que o espectador vê não é a ilusão de um elefante na savana, mas sim um elefante-robô na savana. É outra coisa.” Mas nem por isso menos emocional. O objectivo é outro e tem a ver com identidade, como já havia acontecido antes com Terminal (2010), um ensaio biográfico acerca do célebre físico britânico Stephen Hawking que devolvia a liberdade a essa inteligência confinada a uma cadeira de rodas. “A liberdade existe na possibilidade de um homem poder preparar a sua chávena de chá”, explicava num dos vídeos do espectáculo para falar da possibilidade de extensão da identidade proporcionada pelos autómatos. Em Savanna: A Possible Landscape, os animais existem num diálogo estreito com os cinco manipuladores, e a história de fundo de Amit Drori com o piano da sua mãe é transferida para a relação de afecto entre os animais-robô e os manipuladores, mas também entre os próprios autómatos.

O que Amit Drori propõe é que possamos integrar como identidade de um autómato as nossas expectativas sobre o potencial narrativo do objecto, alimentando assim aquilo que define como “uma alegoria sobre a natureza humana” a partir de objectos que foram sempre vistos como reais. A equipa do encenador demorou quase dois anos até conseguir dar forma emocional a estes animais, explica num documentário sobre o processo, disponível no site da companhia. “Ensaiámos maneiras de encontrar as emoções adequadas para cada uma das criaturas. Foram dois anos de trabalho diário que quase se tornou uma obsessão. Queríamos que as pessoas as vissem como algo pessoal.” O maior desafio, explica, foi transformar os seus autómatos em máquinas afáveis ao longo do espectáculo. “Estamos rodeados de máquinas, são produzidas em massa nas fábricas, e são frias e impessoais. Cada uma das nossas máquinas é única, feita com cuidado e atenção. Nunca quisemos criar uma ilusão: estas máquinas não são realistas”. E, no entanto, a emoção que provocam é.