Economia trava no arranque do ano, mas investimento recupera

PIB cresceu 1,2% face aos primeiros três meses de 2013, mas recuou 0,7% em relação ao trimestre anterior. Abrandamento das exportações penalizou desempenho da economia.

As exportações de bens e serviços abrandaram
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As exportações de bens e serviços abrandaram Daniel Rocha

A recuperação da procura interna, sobretudo do investimento, permitiu à economia portuguesa crescer 1,2% nos três primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado, mas não manter uma trajectória positiva em cadeia, agora que a economia da zona euro apresenta um crescimento muito ténue. Na comparação com o trimestre anterior, o produto interno bruto (PIB) português caiu 0,7%, invertendo a tendência em alta que se verificava desde o segundo trimestre do ano passado.

Com a Alemanha e Espanha a apresentarem um baixo crescimento e França estagnada, o desempenho do espaço da moeda única também abaixo do esperado, com um crescimento ténue de 0,2% em cadeia (e de 0,9% na variação homóloga).

De acordo com uma primeira estimativa das contas nacionais trimestrais, publicada nesta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), “a procura externa líquida apresentou um contributo negativo expressivo para a variação homóloga do PIB no primeiro trimestre, depois de registar um contributo positivo no trimestre precedente, devido principalmente ao abrandamento das exportações de bens e serviços”.

Com a desaceleração das vendas ao exterior ao mesmo tempo em que se verificou uma aceleração das importações de bens e serviços, a procura interna teve um desempenho determinante, “reflectindo sobretudo a evolução do investimento”.

Na comparação homóloga, este é o segundo trimestre consecutivo em que o PIB regista um crescimento (a variação de 1,2% compara com um trimestre em que a economia estava num período de contracção acelerada, com o PIB a diminuir 4%).

Já na evolução em cadeia (entre trimestres) a primeira variação positiva do produto interno bruto aconteceu no segundo trimestre de 2013, seguindo-se na segunda metade do ano mais dois trimestres de crescimento, para agora se registar de novo uma contracção.

As vendas de mercadorias ao estrangeiro, que durante a crise se revelaram praticamente o único balão de oxigénio da economia (sobretudo graças ao forte crescimento das vendas de combustíveis), abrandaram logo nos dois primeiros meses do ano face ao desempenho do ano passado e sofreram já uma quebra em Março, com as vendas a diminuírem para fora do espaço da União Europeia.

Ressentindo-se de uma paragem de 45 dias da refinaria da Galp, que fez cair as vendas de combustíveis e lubrificantes, o crescimento das exportações de bens desacelerou para 1,67% (11.734 milhões de euros, contra 11.542 milhões no primeiro trimestre de 2013). Isto ao mesmo tempo em que as importações aumentavam 6% e voltavam a crescer acima das exportações, para 14.334 milhões de euros. 

O Governo mostrou-se tranquilo na leitura destes números. No final da reunião semanal do Conselho de Ministros, Luís Marques Guedes, ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, referiu o facto de esta descida em cadeia se dever a factores que não se repetem no “resto do ano”, reforçando que a Galp “já retomou o seu funcionamento normal”.

Paula Carvalho, economista do departamento de estudos económicos e financeiros do BPI, não esperava um impacto tão grande destes efeitos temporários, embora não anteveja que venham a ter “um resultado na trajectória” de crescimento deste ano (a projecção do banco é mais conservadora do que a do executivo, ficando-se por uma variação de 1%). Falando antes de um “percalço no percurso”, a economista diz que este recuo em cadeia deve servir para “lembrar que existem muitos problemas estruturais e que é preciso continuar a apostar no reforço [das exportações de bens e serviços] de valor acrescentado”.

O desempenho da economia estará sempre dependente da “intensidade da recuperação do investimento e da manutenção de níveis robustos de crescimento das exportações”, lembrava recentemente o Núcleo de Estudos de Conjuntura da Economia Portuguesa (NECEP), da Universidade Católica. Embora admitindo que a recuperação até níveis semelhantes aos de 2010 possa ser “relativamente rápida”, deixava um aviso claro: a economia “ainda não regressou à normalidade, tendo recuperado apenas cerca de 2% dos 7% que contraiu face a meados” desse ano.

Este ano, o Governo está a contar com uma retoma do investimento, motor determinante da procura interna, e com um abrandamento das exportações – uma tendência que se verificou nestes três primeiros meses do ano. Depois de uma contracção da economia de 1,4% em 2013, o Governo está a contar com um crescimento económico de 1,2% este ano, com metade deste desempenho a depender já da procura interna, na expectativa de uma recuperação do consumo privado e do investimento.

Segundo as previsões da troika e do executivo, o consumo privado deverá crescer 0,7%, enquanto o consumo público vai continuar em queda ao mesmo nível de 2013 (uma contracção de 1,6%). Já quanto ao investimento (formação bruta de capital fixo) é esperado um crescimento de 3,1%, depois de uma queda a pique nos últimos anos; já para a procura interna é projectado uma ligeira progressão, de 0,6%. Enquanto para as exportações (de bens e serviços) se prevê um abrandamento do crescimento, para 5,5%, para as importações, a troika e o Governo contam com um crescimento de 4%, maior do que no ano passado.

No espaço da moeda única, mais cinco países tiveram uma descida do PIB em cadeia (Itália, Holanda, Estónia, Chipre e Finlândia). Segundo o Eurostat, o crescimento trimestral de 0,2% foi, por um lado, suportado pela progressão moderada da Alemanha e, por outro, limitada pela estagnação e contracção de outras economias relevantes.

A maior potência dos 18 países que partilham a moeda única registou um crescimento de 0,8% face ao último trimestre do ano passado, enquanto França estagnou, Itália diminuiu 0,1%, Espanha apresentou um crescimento de apenas 0,4% e a Holanda recuou 1,4%.