Reportagem

Aquele maldito guião de Bela Guttmann

Os milhares no Parque Eduardo VII, em Lisboa, começaram a tarde confiantes e festivos. O que poderia falhar? À medida que a bola teimava em não entrar, porém, começaram a sussurrar o que ninguém queria enfrentar: “Perder duas finais seguidas...” Ninguém acreditava na maldição de Bela Guttmann, mas eis que ela teima em não largar o Benfica.

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Hugo Correia/Reuters
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Patrícia de Melo Moreira/AFP
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99 minutos de jogo. Óscar Cardozo entra em campo em Turim. A muitos quilómetros de distância, aumenta o ritmo da roda de capoeira que, a partir do prolongamento, irrompeu entre a multidão de dezenas de milhar no Parque Eduardo VII, aos pés do Marquês de Pombal, em Lisboa. A nação benfiquista canta em uníssono: “É o Óscar Tacuara Cardozo”. Entra para marcar um livre que o Benfica acabara de ganhar. Ele, Cardozo, o do pontapé canhão. Os batuques batucam mais furiosamente, as gentes incentivam igualmente. Dramaturgia perfeita: o homem chegaria, aclamado pelos seus, para acabar com aquele sofrimento. Era só rematar como tantas vezes rematou. “Mas não é o Lima que vai chutar?”, pergunta alguém.

Dois segundos depois, a dúvida era insignificante. Cardozo (ou seria Lima?) rematou como se impunha mas Beto, o guarda-redes português do Sevilha, defendeu como não se esperava. Sim, seria um momento dramaticamente perfeito. Mas se o futebol é o desporto do povo, é-o por duas razões: por ser o mais democrático, e por recusar teimosamente seguir um guião pré-definido.

Meia-hora depois, enquanto a lua brilhava no céu de Lisboa e o Marquês de Pombal continuava, arrogante, de costas voltadas para os benfiquistas, completamente esquecido da camisola vermelha que vestiu há poucas semanas, aqueles que viveram durante mais de duas horas entre a crença arrancada do fundo da alma e a dúvida angustiante (será que vai acontecer outra vez?) viam Cardozo falhar o primeiro dos dois penálties que confirmaram o que nenhum benfiquista queria viver (aconteceu mesmo outra vez). 
Às 19h, o ambiente era de festa, misto de bancada de estádio e piquenique de Verão. Palco montado, ecrã gigante preparado e a malta a cantar as “papoilas saltitantes” e o campeão que voltou enquanto se ajeitavam no chão as mantas e as arcas com bebida fresca. Camisolas encarnadas por todo o lado, sorrisos abertos. Que poderia falhar?

“O Sevilha não me assusta. Preocupa-me mais o Benfica, pela falta de três jogadores importantes”, dizia-nos Nuno Ribeiro, 35 anos. Afastava os fantasmas da hecatombe de há um ano. “A equipa aprendeu com os erros. São guerreiros e só precisam de jogar aquilo a que nos habituaram”. E a maldição de Bela Guttmann, o treinador húngaro que ganhou dois troféus europeus e que afirmou que, sem ele, nem em 100 anos o clube voltaria a ganhá-los? “Temos lá o Eusébio e o Coluna para lhe passar a mão pela cabeça”. Não, não seria a maldição do húngaro a estragar os planos. Di-lo convicto um homem de 72 anos, João Silvestre, que nos anos 1960 festejou noite fora, em Monte Levar, Sintra, as vitórias europeias do Benfica. “O país parou então e amanhã vai haver muitos feriados”. Cachecol bem posto, não tem dúvidas. “5-0”.

O início: “A taça pesa 15 quilos”, informam os repórteres televisivos no ecrã gigante. “O Luisão levanta isso na boa”, responde o miúdo atrás de nós. O jogo começa. Libertam-se os fumos como no estádio, grita-se como no estádio, insultam-se os adversários como no estádio. Mas algo está emperrado. O Benfica não joga como habitualmente e os benfiquistas começam a ser assaltados pela dúvida. A primeira parte arrasta-se e a multidão lança-se em cânticos esporádicos, como que para afastar as más vibrações e um certo fastio.

Ao intervalo, Filipe Costa, teclista de Sean Riley & The Slowriders, entre outros, que ali fora por acaso (planeara ver o jogo em casa mas, como o trânsito lento não lhe permitiria chegar a tempo, ficou a meio caminho), dizia que a exibição descolorida podia ser positiva: “Às vezes estes banhos de realidade fazem bem ao Benfica”. A segunda parte arranca entusiasmante. Rebentam petardos e o Benfica ataca, remata mais. A noite vai descendo sobre a cidade e o golo há-de aparecer, acreditam todos. Mas o golo não aparece, a angústia aumenta. Não aparecerá no prolongamento, quando toda a gente parece já tão cansada quanto os jogadores e quando se começa a ouvir, muito baixinho, o que ninguém quer enfrentar: “Eh pá, perder duas finais seguidas...”

Chegam os penálties. Ninguém esmorece. “O Oblak defende tudo”, diz-nos um rapaz que morde nervoso o cachecol que tem ao pescoço. Mas Oblak não consegue defender nada.

Era mesmo verdade. O Sevilha ganhara a Liga Europa. O Benfica perdera a sua oitava final europeia. A multidão dispersou em passo rápido, passando entre os que, lágrimas nos olhos, se mantinham paralisados no mesmo lugar. Já não se ouviam batuques. “Palhaço do Guttman”, exclama alguém. O guião do grande treinador húngaro mantém-se imaculado.