Cerca de 150 árbitros portugueses afirmam saber de episódios de resultados combinados

Quase metade dos 307 juízes inquiridos para um estudo revela saber de casos em que foram oferecidos serviços de prostituição para que um resultado fosse manipulado. APAF diz tratar-se de “um ouvir falar”.

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Roberto Schmidt / AFP

Pelo menos 150 árbitros portugueses dizem conhecer casos de ofertas de serviços de prostituição para que o resultado de um jogo fosse manipulado, de acordo com um estudo apresentado nesta quinta-feira.

Ao inquérito, elaborado pela Transparência Internacional – Associação Cívica (TIAC) e pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (CIES-IUL), responderam 307 árbitros sob anonimato, de um total de 1185 registados na Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF). O presidente da associação, José Gomes, desvalorizou as conclusões, dizendo ao PÚBLICO tratar-se de “um ouvir falar por causa dos processos mediáticos”, e garantiu que os árbitros das duas principais categorias não responderam ao inquérito.

Os próprios autores do estudo alertam que os dados não tratam de “informações factuais, mas sim de percepções”. “Em Portugal, os grupos profissionais não estão habituados a fazer inquéritos deste tipo”, notou o presidente da TIAC, Luís de Sousa, que disse tratar-se de “campos extremamente sensíveis”.

O inquérito insere-se num projecto internacional sobre os resultados combinados no futebol e que envolve seis países europeus. Dos árbitros inquiridos, quase um quarto diz conhecer casos de resultados manipulados nos seus campeonatos. Os “problemas económicos pessoais” são as principais causas apontadas para que os juízes se envolvam em esquemas de combinação de resultados, com quase 40% a escolhê-la.

A introdução de mais mulheres na arbitragem é uma solução rejeitada pela esmagadora maioria dos árbitros portugueses. Quase 80% afirmam que “não mudaria nada” no que respeita à manipulação de resultados. Por outro lado, a profissionalização é defendida por mais de 70% dos inquiridos, por possibilitar uma “maior dedicação e qualidade” do trabalho dos juízes.

As críticas à prestação dos árbitros são recorrentes, tanto da parte de dirigentes como de jogadores e treinadores. A maioria dos intervenientes entrevistados considera, contudo, não haver qualquer justificação para as acusações. Na raiz das críticas, dizem, está a ideia de que “os árbitros são o elo mais fraco” e a “percepção generalizada da corrupção em Portugal e o futebol não é diferente”. Apenas 23,9% dizem que os árbitros são criticados por ter havido casos de manipulação de resultados.

Chamado a comentar o estudo, o presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, Mário Figueiredo, chamou a atenção para a falta de protecção jurídica para as pessoas que denunciam os casos de corrupção. “Em Portugal tendem a ser condenados por corrupção as pessoas que falam”, disse Mário Figueiredo, que deixou críticas ao método de nomeação e avaliação dos árbitros portugueses, que considera “pouco transparentes”.

“Para protecção dos árbitros, temos de pensar num mecanismo de nomeação mais transparente e de criar um sistema de avaliação homogéneo”, afirmou o responsável máximo da Liga. O “fosso” entre os clubes grandes e pequenos foi outra das preocupações manifestadas por Mário Figueiredo, que disse estar na origem de algumas polémicas nas arbitragens. “No final da época, entre os [clubes] beneficiados e prejudicados, os mais pequenos são quem sai mais prejudicado”, afirmou.

Presente também no painel de comentários esteve o ex-árbitro internacional Jorge Coroado que notou nas respostas ao inquérito uma “manifesta reserva mental”. Falando do “sentimento de vitimização” patente nas respostas, Coroado rejeitou a ideia de os árbitros serem o elo mais fraco. “Não o entendo, nunca o entendi. Será, porventura, o elo mais forte, pela singularidade das suas funções”, afirmou Jorge Coroado.