Masumi Mutsuda
Masumi Mutsuda Joana Bourgard

Reportagem

“Sinto-me europeu? Sim, mas seria como um apelido. Catalão europeu”

Os catalães vão votar nas europeias mesmo com pouco entusiasmo, porque o que querem mesmo é votar, e ser ouvidos – mas sobre outro assunto. O que está na boca de todos é um referendo que Madrid não quer. Há frases que são ditas tantas vezes que quase as conseguimos antecipar: “Se não gostam de nós, porque não nos deixam decidir se queremos ir embora?”

Em Barcelona ouve-se falar muito de respeito, respeito pela língua e cultura. Depois de ter sobrevivido a proibições e maus-tratos, o catalão é agora o ponto de honra. E um dos momentos em que os catalães se levantaram para defender a sua língua foi em 2001, tudo por causa do primeiro filme de Harry Potter.

Na altura, a produtora Warner recusou autorizar uma versão dobrada em catalão, provocando uma onda de indignação de políticos, sindicatos, com abaixo assinados, uma pressão de tal ordem que levou a empresa a reconsiderar e aceitar um acordo para que os próximos filmes fossem dobrados em catalão. No segundo filme da série, Harry Potter já “parla catalã”, pela voz de Masumi Mutsuda.

Sentado num Starbucks da avenida Diagonal, Masumi já não é o miúdo que entrou no casting para ser a voz de Harry Potter (primeiro em castelhano, porque só começou a aprender catalão na escola e não teve logo pronúncia perfeita). Com 28 anos (parece mais novo), continua a ser actor de dobragem, e apesar de ser defensor da língua e cultura catalãs, não sabe dizer em que língua gosta mais de trabalhar: “O catalão é mais difícil, é mais desafiante. Mas se fizeres a versão em castelhano, já sabes que mais pessoas vão ouvir.”

Meio japonês, meio catalão, Masumi acha que é “cool ser europeu”, embora note que “aqui, as pessoas acham todas que sou estrangeiro”. Confirma-se: mal se afasta para tirar uma fotografia, um curioso vem perguntar se ele é algum famoso actor oriental.

Aprecia a União Europeia: “estarmos mais unidos é termos mais poder”. Isto não quer dizer que não apoie um referendo sobre a independência na Catalunha: “é só fazer uma pergunta”, diz. “Não é dizer algo unilateralmente.”

Mas todas as sondagens dizem que um “sim” ganharia, contrapomos. Uma pergunta teria uma resposta, e um “sim” pediria a separação. E uma saída da UE. “Mas não sabemos”, responde Masumi.

Isto foi o que ouvimos uma e outra vez. “É só uma pergunta”. “Seria curioso ver o resultado”. Mas todas as pessoas que dizem isto não hesitam em dizer que responderiam “sim”. Sim, querem ser independentes. União Europeia? Nenhum põe a hipótese que um “sim” implicasse uma saída da União Europeia. Mesmo que líderes europeus o tenham dito, esta é uma não-questão.

A imagem usada por muitos para explicar a relação entre Barcelona e Madrid é a do casamento que não está a resultar.

Paula Sendim, 34 anos, filha de mãe catalã que fala catalão e de pai brasileiro que fala castelhano, é cantautora e escolheu o catalão para cantar. Confessa que não se identifica com o castelhano. "Não fecho portas, mas não me sai bem", diz, sentada no pátio de uma escola onde dá aulas de música. Depois de passar anos a escrever canções em inglês, acabou por mudar para a sua língua. "Nem acho que seja muito musical, mas é a que sinto que é mais fácil dizer o que quero dizer." 

A língua tem agora qualquer coisa de político, reconhece Paula, olhos castanhos profundos, sorriso pronto. “Mas não tem de ser assim. Não percebo esta obsessão de reprimir o catalão.” Tenta explicar a quem está de fora a relação entre Barcelona e Madrid: “é como um casal em que um não respeita o outro. O que fazer? Um tem de ir embora.”

Visto de Barcelona, o catalão é uma língua que sobreviveu contra tudo e contra todos e que finalmente está a ser tratada como deve ser: usada nas escolas, nos serviços públicos, nas universidades. No cinema ouvia-se menos, mas isso está a mudar: uma lei de 2010 impôs mesmo uma percentagem para fazer aumentar os filmes estrangeiros dobrados ou legendados em catalão para 50% até 2018. Na música, cada vez mais bandas escolhem cantar na língua local.

Para Joan Riera Prats e Rojer Cruells Vallier, que são parte da banda Els Catarres, cantar em catalão é tão natural que nem o questionam. Admitem que quando eram mais novos (têm 30 anos e 26, respectivamente), só havia rock em catalão. Agora há todos os tipos de música.

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Banda catalã Els Catarres Joana Bourgard

O tratamento da língua é uma razão de queixa que têm da União Europeia. “Não há respeito pelo catalão – ainda que haja mais pessoas a falar catalão do que outras línguas oficiais da União Europeia”, queixam-se os dois Catarres, ele de barba e boné, ela de argola no meio do nariz e batom vermelho. “É muito delicado isto do idioma.” Quanto a Madrid, a sensação “é que não gostam de nós, mas também não nos deixam ir”.

“Nunca fui independentista”, começa por esclarecer Enric Isasi-Isasmendi, 63 anos, a voz pausada, profunda e grave do detective Colombo em catalão. “Mas agora votaria ‘sim’ num referendo à independência. Há um momento em que vês que não nos atendem a nada, economicamente, e agora com este tema da língua…” – se a crise foi um catalisador para vozes que defendem que se a Catalunha está melhor economicamente deveria colher esses benefícios, a ideia de ter aulas em castelhano tem espicaçado especialmente os catalães.

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Enric Isasi-Isasmendi Joana Bourgard

Paula Sendim também fala da “questão económica” (líderes catalães têm dito que a região paga todos os anos mais 16 mil milhões de euros em impostos do que o que recebe em investimento) para justificar o voto sim que poria no boletim de um referendo. “Mas na verdade não sei se faria muita diferença”, acrescenta, os olhos castanhos profundos, “porque também há muito ladrão por aqui.”

Gemma Ibañez, 46 anos, que dobra Beyoncé ou Jennifer Beals em catalão, pensa que um referendo pode ser “uma ilusão”. Mas gostaria de ver o referendo, e votaria sim à independência, conta. “Seria algo completamente novo. Ninguém sabe como iria correr. Não sei se é uma ilusão... mas as ilusões movem as pessoas”.

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Gemma Ibañez Joana Bourgard

Ela sente-se “mais europeia do que espanhola”, e ao falar disto não perde a doçura da voz. “Sinto que tenho mais a ver com Roma do que com Sevilha. Gosto muito de Espanha, mas não partilho aquelas coisas dos touros e da paixão da Semana Santa.”

Roger Isasi-Isasmendi Jordà, 31 anos, filho de Enric e voz de Ron, o amigo ruivo de Harry Potter (catalão), e de Walter Jr. em Breaking Bad (castelhano), tem um ritmo mais acelerado. A beber um café numa esplanada de cadeiras metálicas que não é bem para turistas, a mala de couro passada do tiracolo para cima da mesa, Roger apressa-se a sublinhar que não tem nada contra o castelhano. “Fiz um papel na série In Treatment em castelhano e adorei. Também estou a gostar muito de fazer Breaking Bad em catalão. O que gosto do trabalho depende da série ou filme, do personagem, não da língua”.

Gemma também gosta das duas línguas, embora diga que são muito diferentes. “Talvez mais suave em catalão, mais seco em castelhano.” Gemma diz que a sua língua é viva, mas tem vindo a ser reconstruída. “O meu catalão melhorou graças ao trabalho de interpretação e às correcções dos linguistas.”

Mas é Roger quem resume melhor o sentimento de muitos catalães: “Não me sinto nada espanhol. Sinto-me europeu, sim, mas como um apelido. Seria catalão europeu.”

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Roger Isasi-Isasmendi Jordà Joana Bourgard
 PP e PSOE taco a taco nas sondagens separados apenas por 480 mil votos

Esta é a primeira de onze paragens na Europa que vai a votos. Amanhã, Marselha.