José Sócrates foi ao festival Literatura em Viagem fazer o elogio de Rimbaud

Com exemplos que vão de Jack Kerouac à tradição hinduísta, o antigo primeiro-ministro defendeu em Matosinhos uma hierarquia das viagens consoante o grau de liberdade que oferecem.

José Sócrates
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José Sócrates Enric Vives-Rubio

A oitava edição do festival Literatura em Viagem (LeV), que este ano homenageou o escritor José Rentes de Carvalho, abriu na sexta-feira à noite, em Matosinhos, com uma conferência do ex-primeiro-ministro socialista José Sócrates, que propôs uma curiosa hierarquia de viagens, ordenando-as em três categorias, de acordo com a natureza e o grau de liberdade que proporcionam. Pelo meio, citou Miguel Torga e Jack Kerouac, e fechou com uma emocionada evocação de Arthur Rimbaud, um “escritor francês” que, com desarmante sinceridade, confessou ter “conhecido recentemente”.

Coube ao presidente da Câmara de Matosinhos, Guilherme Pinto, apresentar o orador, de quem fez o esperado elogio, salientando ainda a amizade que os une. Lembrando o adágio “Quem não viu Lisboa, não viu coisa boa”, assegurou que “quem não conhece bem o engenheiro José Sócrates, não sabe o que perde”.

Sócrates iniciou a sua intervenção dando voz à pertinente pergunta que muitos, na assistência, já se estariam a colocar: “A que propósito se convida um ex-político para falar de literatura de viagens”? Mas a verdade é que, como se veio a constatar, não estava ali para debitar umas banalidades sobre os Descobrimentos, nem para citar Camões e Pessoa, nem sequer para relatar alguns episódios picarescos das suas viagens oficiais.

Começou por responder à sua própria pergunta defendendo que “a política e a viagem têm tudo a ver” uma com a outra, já que ambas implicam “sentido de aventura” e o gosto pelo “imprevisível e o contingente”, mas também porque ambas ensinam a “lidar com a decepção”: porque “nem sempre chegamos ao destino” ou porque esse destino não corresponde ao que “tínhamos sonhado”. Parecia que o tema estava apresentado e que o orador iria passar a próxima hora a explorar a analogia entre o político e o viajante.

Mas Sócrates, reconheça-se, mostrou ter algum gosto pela aventura, e depressa deixou para trás este tópico prudente, rumando a paragens mais exóticas, das deambulações de Jack Kerouac e da geração beatnick aos ensinamentos da tradição hinduísta, culminando com um elogio de Rimbaud, cuja vida e obra, diz, resumem “tudo o que podemos querer saber sobre viagens”.

Depois de algumas breves digressões, para explicar, por exemplo, que só começara a apreciar a beleza da paisagem duriense quando lera a palavra “fraga” num verso de Miguel Torga, ou para confessar o impacto que tivera nesse “rapaz de 14 ou 15 anos, a viver na Covilhã”, uma entrevista do actor Omar Sharif em que este afirmara viver “nos grandes hotéis das capitais europeias” (declaração cujo “cosmopolitismo” o orador equiparou ao de um verso de Cesário Verde: “Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!”), Sócrates entrou a fundo na tese principal da sua conferência: o postulado de que há três tipos de viagens, associadas a três modos de liberdade.

O primeiro é a viagem com regresso marcado, que proporciona uma “liberdade suspensiva, provisória, entre parêntesis”. A viagem em que “escapamos às obrigações e rotinas”, e deixamos de “ver as mesmas pessoas”, percebendo que “essa ausência não é uma privação, mas uma libertação”. Referindo-se a períodos de férias quando era primeiro-ministro, acrescentou que, ao voltar e constatar que “estava tudo na mesma”, percebia que “não somos assim tão necessários”.

A segunda viagem é a da “ruptura”, da “fuga do sistema e das convenções”, a viagem em que “vamos e não queremos voltar”. Evocando o Kerouac de On the Road como exemplo desta atitude, Sócrates confessa nunca ter tido coragem de empreender este género de viagem, mas considera-a “superior” à anterior. Não tão “sublime”, no entanto, como o terceiro tipo de viagem, aquela em que “já não sabemos para onde vamos ou por que vamos, mas apenas que vamos”. Esta última liberdade, a da renúncia total, encontrou-a na tradição hinduísta e, em particular, nos ensinamentos do filósofo indiano Swami Ramdas (1884-1963), cuja leitura aconselhou à assistência.

Ao reservar a última parte da sua palestra a Rimbaud, sugeriu que este foi um exemplo vivo dessa espécie de entrega absoluta à viagem. “A expressão que ele mais utilizava era ‘allons!’”, observa Sócrates, lembrando que já depois de lhe terem amputado uma perna, gangrenada, este sonhava ainda com um membro mecânico que lhe permitiria voltar a viajar.

O ex-primeiro-ministro diz ter “tropeçado” nos versos de Rimbaud quando passava uns dias com os filhos no sul da Argélia. Um encontro talvez tardio, mas que parece ter sido marcante, a julgar pelo genuíno entusiasmo com que depois falou, praticamente sem consultar notas, desse “jovem poeta que, em cinco anos, de 1870 a 1875, criou uma das obras mais extraordinárias da literatura mundial, para depois renunciar a tudo, aos 20 anos, não escrevendo um só verso mais”.

No final, Guilherme Pinto sugeriu que a melhor forma de cada um fazer jus à intervenção de Sócrates seria, “na internet ou na biblioteca, procurar saber quem foi Rimbaud”. Mas para quem já tinha uma ideia, o fascinante foi ver Sócrates citar esta ou aquela passagem e dizer coisas como “Vejam a alegria disto, a juventude disto!”, com essa improvável capacidade de ler o autor das Iluminações como se Rimbaud tivesse acabado de escrever os seus poemas e ele fosse o seu primeiro leitor.