Ascensão e queda em Lübeck

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Os Buddenbrook é um imenso fresco sobre uma cidade alemã aos olhos de uma família que perdeu tudo. As marionetas do Puppentheater Halle oferecem, hoje e amanhã no Maria Matos, a possibilidade de reescrita do destino

Halle é uma cidadezinha no interior leste da Alemanha, antigo centro industrial, feita de famílias com poder e vícios, a olharem para o passado e a não gostar do que o espelho do presente lhes mostra. Mesmo que a universidade que carrega o seu nome seja uma das mais antigas do país e, por isso, observadora atenta do impacto das evoluções sociais e políticas da Antiga Alemanha de Leste, é uma cidade que lida mal com o que possam ser as transferências de poder, as novas ordens sociais, os novos modelos e a consciência de que a culpa nasce nas acções conservadoras e nas defesas intransigentes de modelos já pouco coincidentes com a realidade. Halle é não é Lübeck, a cidade que era e não era aquela sobre a qual Thomas Mann escreveu em 1901. Em Os Buddenbrook, a viragem do século, o da industrialização e da ascensão de uma nova utopia, é o pano de fundo para uma saga familiar que, mesmo à distância de 115 anos nos parece, contudo, demasiado próxima.

Moritz Sostmann não é Thomas Mann mas é, e não é, Thomas Buddenbrook, o primogénito que deveria seguir a tradição familiar e hipoteca tudo, incluindo o futuro, fruto da incapacidade em responder à voragem dos tempos. Sostmann é o encenador da adaptação teatral do romance que, quase três décadas depois, serviria para a Academia Sueca justificar a entrega do Nobel da Literatura a Mann (hoje e amanhã, 14º Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas de Lisboa, Teatro Maria Matos, Lisboa). Se em 1901 Os Buddenbrook era um grande fresco do romantismo tardio sobre a Alemanha, ao ponto de o seu autor ter sido proibido de a publicar, em 2014, quando a burguesia alemã já não se distingue e os jovens vivem na mesma aporia que os seus concidadãos europeus, a metáfora já não explica tudo.

“Às vezes o perigo está no desejo de ver de tão perto que acabamos por ver o que lá não está”, explica Moritz que há dois anos faz circular um espectáculo que se tornou, por onde passou, num sopro entusiasmado para a Puppentheater Halle, companhia com 60 anos, encravada numa cidade, que parecia ter tudo. “Há uma mentalidade fechada em Halle, as pessoas olham para o passado e esquecem-se de pensar os dias de hoje”, reflecte um homem que tem criado, a partir de textos tão diversos como a Odisseia, de Homero, A Boa Alma de Sechuan, de Brecht, ou Amerika, de Kafka, intensas análises ao comportamento humano. “Interessa-me trabalhar sobre a contradição entre o que se imagina ser possível e a nossa ideia de impossibilidade”. O seu teatro é, por isso, um teatro que, se imaginado, se fundamenta nos efeitos dramáticos e dramatúrgicos para conseguir aquilo que Sostmann define como “projecções enfáticas do espectador”.

É aqui, no processo de ilusão que entram as marionetas de latex, quase entidades vivas, hiper-realistas, manipuladas por actores que de tanto com elas dialogarem se lhes assemelham, como se corpo de um e voz de outro fossem parte de uma mesma identidade. “As marionetas são o que de mais próximo existe da experiência de ler um livro”, começa por explicar. “Com elas podemos projectar o que imaginamos estar a acontecer, ao mesmo tempo que vemos algo que era, por princípio, imóvel”. As marionetas dos Puppentheater, naquilo que representam da família Buddenbrook, são o modo que Moritz Sostmann encontrou “para que os espectadores acreditem”. Ou voltem a acreditar. No quê? No modo como a vida dos Buddenbrook “materializa a ordem burguesa, a força da família, o sentimento de pertença de todos os elos à mesma cadeia”, como explica Gilda Lopes Encarnação no posfácio à edição portuguesa do livro de Mann, editado em 2011 pela Dom Quixote. Ou seja, no que constitui uma comunidade, no que ela tem de castrador e de tranquilizador. O encenador fala das marionetas como vasos comunicantes entre o texto e os espectadores, enfatizando aspectos da narrativa que, por força da adaptação dramatúrgica, se tornam mais evidentes. Por isso não estranha que este seu olhar sobre a obra de Thomas Mann, que coloca ao nível da mesa de jantar – disposta em frente à plateia – as tensões familiares, produza efeitos reverberadores, ou imaginados, em objectos criados nas décadas seguintes, como nas peças de Ödon von Horvath, onde se perguntava de que modo as novas gerações não iria repetir os erros dos antepassados, ou num filme como Os Malditos, de Luchino Visconti, expiação sádica do apodrecimento moral da sociedade burguesa.

“As marionetas funcionam como uma máquina geradora de imagens, como se fosse o casting de um filme. O seu lado artificial permite que imaginemos o potencial do que estão a fazer”. Sostmann chama-lhe “o milagre do palco” e isso, numa cidade como Halle, que é e não é Lübeck, é um desafio. A peça parte para o livro sustentada numa versão famosa na Alemanha, assinada por John von Düffel, que se concentra nos três filhos: Thomas, Christian e Tony. Esta limitação temporal introduz comparações com os tempos actuais mas permite também que a marioneta sirva, através do manipular, para um processo de aproximação às angústias do espectador. O encenador gosta que esta possibilidade de dependência seja uma espécie de transferência para o espectador, relativamente ao texto, daquilo que acontece entre marionetista e marioneta. “O público tem que criar, na sua cabeça, a mecânica necessária para encontrar o seu lugar dentro da própria narrativa”, explica. Isto não é identificação, é aproximação. “As metáforas comportam riscos. A distância sugerida pela marioneta ajudam-nos a antecipa-los”. E é assim, afinal, que os erros não se repetem e a história, a de Halle como a de Lübeck, como a de todas as cidades onde vivem pessoas iguais aos Buddenbrook, aprende consigo mesma.