Presidente da Nigéria diz que rapto de raparigas marca "o fim do terrorismo" islamista

Goodluck Jonathan foi obrigado a abrir a "Davos de África" falando nas alunas raptadas, cujo paradeiro continua desconhecido.

Goodluck Jonathan na abertura do Fórum Económico Mundial, que decorre em Abuja
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Goodluck Jonathan na abertura do Fórum Económico Mundial, que decorre em Abuja AFP

O Presidente da Nigéria, Goodluck Jonathan, abriu esta quinta-feira o Fórum Económico Mundial, que decorre em Abuja, anunciando que o rapto de mais de 200 alunas vai marcar “o fim do terrorismo” islamista no país.

Jonathan contava que o Fórum fosse uma montra de promoção da Nigéria, que foi recentemente elevada a primeira potência económica de África depois de uma alteração à forma como é calculado o seu produto interno bruto. Mas a reunião que junta líderes empresariais, políticos e intelectuais, que já tinha sido afectada pela violência islamista – o Governo blindou Abuja, na tentativa de evitar novos atentados como os que nas últimas semanas mataram 90 pessoas na capital – foi atingido em cheio pelos raptos. O Presidente, que só no domingo à noite, e pressionado internamente e internacionalmente, admitiu a gravidade do que se passou e pediu ajuda internacional, teve que começar o seu discurso por aí, depois de pedir um minuto de silêncio pelas raparigas.

Goodluck Jonathan não adiantou qualquer dado sobre o paradeiro das crianças e adolescentes, cerca de 270, levadas de duas vilas da província de Borno em Abril (223) e no domingo passado (entre oito e 11). Estará a contar com a ajuda internacional que, no entanto, só foi oferecida para encontrar as raparigas e não para lutar contra os islamistas. 

Agradeceu aos Estados Unidos, que vão enviar uma equipa de resposta rápida – segundo as palavras do secretário de Estado, John Kerry – que inclui militares, funcionários do Departamento de Justiça e agentes do FBI. Agradeceu ao Reino Unido (que também vai mandar especialistas), à França (que prometeu ajuda) e à China, que se ofereceu para disponibilizar dados de satélite que permitam detectar os movimentos dos islamistas do grupo Boko Haram, que reivindicaram o rapto.

A primeira-dama norte-americana, Michelle Obama, também se juntou à campanha pela libertação das adolescentes nigerianas, tal como jovem paquistanesa Malal Yousafzai, que sobreviveu a uma tentativa de assassinato pelos talibãs, em 2012. E também o líder do Partido Socialista português, António José Seguro.

Não foi adiantado quando chegarão estas equipas nem o que está a ser feito, internamente, para procurar as raparigas. E Jonathan está, tudo indica, à espera da reacção internacional, depois de o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter dito à estação de televisão ABC que pode ser que este rapto tenha sido “o acontecimento que levará à mobilização da comunidade internacional para se fazer alguma coisa contra uma organização tão abjecta, que cometeu um crime asqueroso”.

Os países que ofereceram ajuda não se comprometeram com uma luta contra os islamistas, apenas disponibilizaram auxílio para descobir o paradeiro das alunas das escolas de Borno.

“Contamos com o vosso apoio na nossa guerra contra o terrorismo”, disse Jonathan aos mais de mil participantes da “Davos africana” (como é chamada). “Se não tivessem vindo, os terroristas teriam ganho”. Um antigo embaixador americano na Nigéria, John Campbell, notou à agência AFP que o Presidente nigeriano recusou, no passado, qualquer ajuda na luta contra os Boko Haram (significa “a educação ocidental é proibida”), que há cinco anos iniciaram uma luta armada com o objectivo de criarem um estado islâmico no Norte do país. Campbell disse que Goodluck Jonathan – que receia que a onda de indignação na Nigéria comprometa a sua reeleição, nas presidenciais de 2015 – nunca quis qualquer auxílio, nem ao nível da formação de unidades antiterrorismo.

Nas ruas das cidades nigerianas – por exemplo em Lagos – prosseguem as manifestações da população que acusa o Governo de Jonathan de ter reagido tarde ao rapto e de continuar a fazer pouco para encontrar as raparigas. Por todo o mundo, a campanha pela libertação das crianças e adolescentes vai somando apoios – Michelle Obama, a mulher do Presidente americano, juntou-se a ela na quarta-feira. E já esta quinta-feira Malala Yousafzai, a rapariga paquistanesa que foi atacada por taliban no Paquistão, fez um segundo apelo ao mundo para que ajude a libertá-las. “Se ficarmos em silêncio, isto vai acontecer mais vezes”, disse Malala à BBC.

Sobre o paradeiro das raparigas – que segundo os Boko Haram cometeram o crime de estudar, quando a função das mulheres é casar – nada se sabe além das palavras vagas do líder do grupo que, num vídeo divulgado no início da semana, anunciava que as iria vender. Poderão estar já fora da Nigéria, num dos países vizinhos (Chade, Níger ou Camarões).