O regresso de B Fachada, simplesmente Fachada

No final de 2012, o cantor de Criôlo editou o seu décimo segundo disco, O Fim , deu alguns concertos de despedida e retirou-se. Esteve ano e meio desaparecido dos palcos e longe dos estúdios. Agora é o momento do regresso. Caiu-lhe o bê e, simplesmente Fachada, apresenta-se hoje e amanhã em dois concertos na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

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Em Dezembro de 2012, chegou O Fim , o disco, e foi mesmo o fim. B Fachada, que nos cinco anos anteriores tinha construído com estrondo e perante assombro de quem o ouvia um percurso marcante na recente música portuguesa, despedia-se para uma sabática.

Deixava atrás de si doze discos (e a revisita a Os Sobreviventes, de Sérgio Godinho, gravada com Francisca Cortesão e João Correia) e, neles, entre as voltas à tradição de Viola Braguesa, o romantismo outonal de B Fachada, o lo-fi entre Trás-Os-Montes e África de Há Festa na Moradia, um disco-manifesto intitulado Deus, Pátria e Família e um álbum em ritmo afro-chula digital, intitulado Criôlo, construiu uma obra onde saltou de instrumento em instrumento, de estética musical em estética musical, sem perder a coerência.

Mas o fim, como de resto se sabia, não era despedida definitiva. No último dia 24 de Abril, Fachada esteve entre os músicos que assinalaram na Praça do Comércio, em Lisboa, os 40 anos do 25 de Abril. No dia seguinte, juntamente com Francisca Cortesão e João Correia, esteve no Lux, também na capital portuguesa, a tocar Os Sobreviventes de Sérgio Godinho. Agora é o regresso mesmo regresso. Caiu-lhe o bê e agora é só Fachada. Assim se apresentará quinta e sexta-feira na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, para mostrar o que andou a fazer no último ano e meio (a primeira data está esgotada; concertos às 22h, bilhetes a 10€). Posteriormente, dia 16 de Maio, estará no Porto, no Plano B, chegando a Coimbra, ao Salão Brazil, a 21 de Junho.

E que andou Fachada a fazer no ano e meio passado, além de, como a foto documenta, ver nascer o segundo filho? “Voltei a fazer o meu circuito todo”, diz.  “Comecei a tocar o piano, depois fiz umas canções com a guitarra e depois voltei-me para a braguesa antes de voltar ao piano novamente”. Ao mesmo tempo, andou a “fazer as pazes com a nossa literatura e a nossa música”: “Regressei aos meus Aquilino [Ribeiro] e Camilo [Castelo Branco]”, conta, reouviu José Afonso e a Filarmónica Fraude, foi ouvir o cancioneiro português pré-revolucionário esquecido. O processo de fazer as pazes, no seu caso, não corresponde a um momento novo. “Estou sempre em conflito, com aquela sensação de insatisfação que não serena”. Neste caso específico, significou tentar resolver um problema irresolúvel: “Esta sensação de que tinha muitas perguntas a fazer ao Zeca que nunca terei oportunidade de fazer. Andei a tentar descobrir na música se alguém as tinha feito depois”. Ter resposta às perguntas, neste contexto, não era determinante. Importava o questionamento, importava dar novo passo - esse que começaremos agora a descobrir onde o levará.

Fachada tem duas certezas. A de que, na génese, a sua música não mudou. “É sempre em continuidade, não posso ser outra pessoa”. E a de que, apesar disso, alterou-se a sua atitude em relação à música. “Os meus primeiros anos foram feitos seguindo um plano que eu achava que, se fosse cumprido, provava qualquer coisa. Agora já não é isso que está em causa, já não estou preocupado em provar nada a ninguém. Estou preocupado em fazer as minhas coisas sossegadinho. Tenho é que fazer as minhas canções, tocá-las e ponto final”.

A intenção inicial para os concertos de regresso seria apresentar unicamente novas composições. Tal, porém, não acontecerá. “Só no início deste é que comecei a compor novamente com um carácter mais definitivo. O anterior foi de estudo e experimentação”. Na Galeria Zé dos Bois veremos pois canções ainda à procura da total definição, apresentadas em sintetizadores, MPC e piano. Canções com outras canções dentro. “Construí-as com base em samples dos discos que comecei ou recomecei a ouvir, todos portugueses, com excepção de um, brasileiro”. De que discos se tratam, prefere não dizer. “Tenho curiosidade em saber se os autores os vão reconhecer. E alguma confiança que vai ser levado a bem”. Para já, ficamos apenas com o título de uma das novidades: Camuflado. Sem disfarce, o regressado Fachada apresenta-se.